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Entre o jaleco branco e a denegação
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Neila Fontenele é editora-chefe e colunista do caderno Ciência & Saúde do O POVO. A jornalista também comanda um programa na rádio O POVO CBN, que vai ao ar durante os sábados e também leva o nome do caderno

Neila Fontenele ciência e saúde

Entre o jaleco branco e a denegação

Ceará registra 14.458 falhas na assistência à saúde em 2025
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PROMESSAS para melhorar a prestação de serviços de saúde passam pela IA (Foto: MrPanya / Adobe Stock)
Foto: MrPanya / Adobe Stock PROMESSAS para melhorar a prestação de serviços de saúde passam pela IA

Feliz 2026 e felizes tretas novas!

Antes de entrar no tema principal desta coluna, quero deixar um registro: se estou, neste momento, escrevendo, estudando, indo à academia e cheia de projetos pessoais, isso acontece devido à assistência maravilhosa de uma equipe de profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos que me acompanharam durante alguns tratamentos.

Portanto, do meu ponto de vista como paciente, há o reconhecimento da relevância desses profissionais. Por essa razão, espanta-me ler um artigo anônimo atribuído a um médico que fala do "fim da Medicina", circulando em redes sociais de profissionais de saúde. Pasmem: logo após uma pandemia de Covid-19, em que a atuação desses profissionais salvou muita gente.

O texto que circula pelas redes sociais fala como o poder de decisão do médico tem sido cerceado pelo Supremo Tribunal Federal, que estaria usurpando a competência de quem tem o poder de dar os diagnósticos, citando nominalmente o ministro Alexandre de Moraes.

Pelo que acompanho das notícias, o ministro tem sempre solicitado pareceres médicos, e falar do fim de uma área do conhecimento e profissional parece-me particularmente exagerado. O artigo começa assim: "Sou médico. E escrevo hoje não movido por vaidade, corporativismo ou nostalgia barata, mas por indignação ética".

Ninguém falou que a motivação do artigo era essa, mas, já que ele começa negando essa razão, deve ser porque o autor pensou nessas razões para o texto em algum momento. Na Psicanálise, esse tipo de discurso é chamado de denegação. Ou seja, há um mecanismo de defesa do sujeito que recusa reconhecer como o seu pensamento e o seu desejo se desenvolvem, gerando uma contradição.

PROCESSOS DE MUDANÇAS

O fato é que as profissões estão mudando — assim como a forma de se relacionar com elas — e há uma precarização em todas as áreas; mas dizer que é o "fim" por ter que se sujeitar à lei é um pouco demais.

Como um médico amigo me comentou, a profissão tem muitos desafios. Um deles é melhorar a relação com os pacientes; outros envolvem as limitações do sistema de saúde e os desafios para o tratamento e para a formação dos profissionais. Não faltam questões reais. Por essa razão, não precisamos criar dificuldades imaginárias.

CEARÁ REGISTRA 14.458 FALHAS NA ASSISTÊNCIA À SAÚDE

Dentro dos dados que realmente preocupam, estão as falhas no processo de assistência à saúde. O País somou 480.283 ocorrências em 2025. No Ceará, foram 14.458 delas, segundo levantamento da Organização Nacional de Acreditação (ONA), com base em dados fornecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), atualizados em 7 de janeiro de 2026.

Boa parte dos registros estão nos hospitais, que concentraram a maior parte dos registros, com 428.231 eventos adversos, enquanto outros serviços de saúde, como clínicas e laboratórios, somaram 52.052 ocorrências.

Vale ressaltar que, em 2025, entre os eventos adversos registrados, 249.230 ocasionaram danos leves aos pacientes; 50.710 resultaram em consequências moderadas; 10.458 em lesões graves; e 3.158 evoluíram para óbito.

 

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