Na esquina, havia um doido e um poeta
Dentre os quatro cidadãos da lista que segue:
Batista vagava pelas ruas em ode aos fuxicos sobre as vidas alheias.
Amélia andava nua de corpo,
com a consciência comprometida.
Odete corria depressa, sempre sem fôlego e com o olhar desviado.
José era médico especialista na arte do cinismo e em passar a perna nos seus.
José desfila todo dia nas estradas,
montando uma caminhonete.
A visão é de grandiosidade,
mas o coração é pequeno.
Choram suas Marias, suas meninas
e suas Madalenas,
Enquanto espera a pena de seus dias na morte.
Amália, coitada!
Mãe de dois filhos pródigos e um adolescente,
Só vivia como Odete: correndo contra o tempo,
Tudo para dar conta, tudo para haver tempo.
Com tempo para todos e sem tempo para si,
Perdia o fio de sua consciência.
Na rua, todos olhavam suas batalhas.
Diziam "lá vem a Amália da Francisca. Corre doida e desleixada. Filha de doido, doidinha é".
Batista era advogado da região,
Temido por tanta confusão.
O problema de Batista morava na sua língua:
Não falava de si, só falava dos outros
E de malgrado.
Pobre Batista!
Só desejava mal aos outros.
Tão acompanhado que só vivia
De conversas alheias, com nomes alheios
Atrapalhando os caminhos de quem não é alheio.
Julgava os poetas e os doidos como loucos e doentes, sem distinção.
"Louco é quem pragueja a vida dos outros" - dizia o mendigo analfabeto da esquina a Batista, sem grau nenhum de instrução jurídica.
Odete, filha de Amália, sofria o desafino
e desafinava nas missões,
Mas cantava a seguinte prece
Em todos os acordes que tocava:
"O louco se deixou vencer, o poeta escreve.
Mamãe, papai e titia,
todos da minha família, perdidos
Em suas próprias cabeças,
Vencidos pelo orgulho de não morrer nas belezas
De quem escreve para si
Como louco a contenda.
Melhor ser louco a contenda
do que doente a desfeita."