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Jornalista, é mestra em Estudos da Tradução (UFC), especialista em Tradução (Uece) e pós- graduada em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais (Estácio FIC). No O POVO, já atuou como ombudsman, editora de Opinião, de Capa e de Economia, além de ter sido repórter de várias editorias.

Daniela Nogueira linguagem e comunicação

Jornalismo 2020: reflexões finais

Tipo Opinião

Começo pelo fim. Esta é a minha última coluna do ano como Ombudsman do O POVO e a penúltima do mandato. Nos próximos dias, encerro a gestão que abracei com muito empenho e cumpro com o propósito de ajudar a aperfeiçoar o tratamento jornalístico dado aos temas, por meio da escuta, da acolhida de sugestões, críticas e comentários em geral e da mediação.

Têm sido quatro anos de troca constante com um público que há muito deixou de ser tão somente consumidor e passou a participar do processo - como tem de ser e como O POVO permite que seja, abrindo canais para isso. Mas deixemos as despedidas para o domingo que vem.

Neste, que tem sido o ano da excepcionalidade, o Jornalismo exigiu de cada um de nós muito mais do que o conhecimento das técnicas de que já sabíamos. Demandou dos jornalistas mais equilíbrio para lidar com temas sensíveis e serenidade para pautar assuntos delicados quando o mundo insistia em engrossar o coro sobre pandemia, tentando entender o vírus, os sintomas, o tratamento.

Ao mesmo tempo, precisamos produzir mais e mais conteúdo para mostrar ao público que a informação é fundamental e que a mentira não deve ser compartilhada, reforçando o Jornalismo profissional e ratificando a importância de verificarmos nossas fontes. Assim na pandemia como nas eleições.

Em março/abril/maio deste ano, quando enfrentávamos a primeira onda de número de casos e mortes muito alto de covid-19, muitos passaram a evitar esses "assuntos tóxicos". O jornalista não pôde fazer isso. O jornalista que trabalha em um veículo jornalístico, nem pensar. Estávamos - e estamos - todos imbricados neste assunto, mesmo com o distanciamento social, mesmo com as Redações domésticas.

 

Retrospectiva

Das 46 colunas que escrevi até domingo passado neste espaço, pelo menos 18 tiveram como tema predominante a relação da cobertura jornalística com a pandemia causada pelo novo coronavírus. Ou seja, cerca de 40% dos textos abordaram a covid-19 na imprensa.

Assim, foram analisados nesse contexto assuntos como as notícias falsas em tempos de coronavírus, o papel do Jornalismo de informar sem criar pânico, as mudanças nas Redações e o trabalho a partir de casa, os cuidados com os profissionais dos veículos jornalísticos na cobertura (em portas de hospitais ou transitando pelas ruas) e a crise do jornal impresso, que parece ter ficado mais evidente neste momento, quando grande parte se voltou para o on-line.

Além disso, imagens chocantes, como as covas abertas e os inúmeros caixões que saíam dos hospitais, e eram publicadas nos nossos produtos, foram objeto de discussão. Também se analisou por que não se publicava notícia boa, como muitos leitores questionavam. O lugar do Jornalismo no movimento antivacina foi analisado assim como a relevância do fortalecimento do jornalismo científico mais perto da população.

Quase todas as colunas de março, abril e maio tiveram como tema a relação do Jornalismo com a covid-19. Apenas uma de março não abordou o assunto, quando avaliei o "jornalismo das urgências" e a necessidade que há de refletirmos sobre o senso de urgência em um acontecimento realmente extraordinário.

Ademais, sempre nos baseamos no que acontece ao nosso redor no Jornalismo. Não foi razoável o destaque ínfimo dado à transposição das águas do rio São Francisco, por exemplo, e não é adequada a moderação que há dos comentários dos leitores no portal. Também precisamos ter mais atenção quando usamos peças de humor nas redes sociais, para evitar desgastes desnecessários, como ocorreu com um vídeo de um porquinho fardado. Tudo isso foi objeto de discussão e análise neste espaço, após avaliação interna.

Há temas que precisam - de forma urgente, destaco - de um debate interno no O POVO para uma cobertura mais responsável, sem espetacularização ou sensacionalismo. Certos assuntos já carregam apelo emocional em demasia. É o caso do suicídio, que precisa de mais reflexão e diálogo; é o caso do estupro, que necessita de sensibilidade; é o caso do racismo, que vira pauta frequentemente na tragédia e na polêmica.

A campanha eleitoral atípica, a falta de debates políticos mais recorrentes entre os candidatos e o questionamento das pesquisas eleitorais também foram tópicos, indubitavelmente, que nortearam a pauta nesta coluna.

Finalizo pelo começo: Jornalismo é serviço e precisamos sempre ter em mente quem é o nosso público-alvo. Quando passamos a apenas "produzir conteúdo", caímos na arriscada rotina da produção em massa.

Jornalismo pressupõe, sobretudo, reflexão.

 

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