Foto de Paulo Henrique Martins
clique para exibir bio do colunista

Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris I. Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenador do Núcleo de Cidadania, Exclusão e Processos de Mudança (Nucem – UFPE)

Brasil, um país ingovernável

Tipo Opinião
Paulo Henrique Martins
Professor da UFPE e ex-presidente da Associação Latino-Americana de Sociologia (Alas)
 (Foto: Acervo pessoal)
Foto: Acervo pessoal Paulo Henrique Martins Professor da UFPE e ex-presidente da Associação Latino-Americana de Sociologia (Alas)

A vitória de Bolsonaro, em 2018, não foi mero acidente produzido por incompetência eleitoral dos adversários, por impedimento judicial da candidatura de Lula ou pela "facada" sofrida pelo candidato populista em Juiz de Fora, poupando o mesmo de expor suas fragilidades intelectuais num debate público. Essas explicações são insuficientes. Há algo mais estrutural a ser analisado na eleição do "capitão".

Bolsonaro revela as fragilidades de nossa experiência democrática agravada pela nova dependência gerada pelo neoliberalismo no sistema político. Esta influência externa foi mediada por alianças oportunistas envolvendo interesses estrangeiros e parte das elites brasileiras. A estratégia colonial neoliberal se realizou em três passos.

O primeiro foi a meta de privatização de ativos lucrativos como os bancos estatais e as reservas minerais estratégicas como petróleo, ferro e outros. O segundo foi o controle pelas grandes empresas dos mercados consumidores de alta e média renda. O terceiro foi o enfraquecimento da capacidade estatal de gerenciar políticas integradoras da Nação.

Isto significou o bloqueio do planejamento territorial em alguns planos: a) do apoio à expansão econômica preservando o mercado interno b) de modernização e valorização da administração pública, c) de financiamento a inovações produtivas e científicas e d) da criação e expansão de políticas públicas geradoras de emprego, renda, proteção social, étnica e ambiental.

O desmonte do planejamento territorial está tornando o Brasil ingovernável, comprometendo a soberania nacional e a produção da vida social. Isto é percebido nos preços, no desamparo psíquico dos indivíduos, no empobrecimento e no desmonte ambiental.

Por isso, o fenômeno Bolsonaro tem que ser apreciado no contexto de um país sem "vontade de poder" e sem utopias. A "privataria" desmontou os dispositivos de soberania em favor dos interesses das grandes empresas transnacionais e de parte das elites nacionais (econômicas, políticas, militares e judiciais), reforçando a dependência e a baixa estima dos brasileiros. n

 

Essa notícia foi relevante pra você?
Logo O POVO Mais