Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
A discussão sobre o que é "nacional" e o que é "regional" na cultura brasileira voltou ao centro do debate com "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho. Filme pernambucano, rodado no Recife, premiado em Cannes, escolhido para representar o Brasil no Oscar e saudado como retrato da ditadura. Ainda assim, parte da recepção interna recorre ao velho rótulo: "filme regional", "muito ligado a Recife", "não fala do Brasil, fala de um Nordeste específico".
E até Eduardo Escorel, o grande herdeiro do cinema novo carioca escreveu na Revista Piauí: "Assisti a 'O Agente Secreto' pela primeira vez no início de outubro, em sessão matutina para a imprensa. Admirei em especial, na ocasião, os oito minutos da segunda sequência que se passa em um posto de gasolina isolado, na beira de uma estrada, e acima de tudo as atuações de Wagner Moura e Tânia Maria durante todo o filme. Fora isso, além de ter me parecido difícil de entender, achei passada da conta a duração de 158 minutos de 'O Agente Secreto', contendo algumas sequências que não me parecem imprescindíveis e outras bizarras."
Kleber reagiu: "Meu ponto de vista é brasileiro, com base em Recife". E se recusou a virar Gilberto Freyre.
Esse embate revela algo de fundo: no Brasil, "nacional" não é adjetivo neutro, é posição hierárquica no campo cultural. Algumas obras são tomadas como nacionais por definição; outras são rebaixadas a "regionais" mesmo quando figuram conflitos estruturais do País. Minha hipótese: na prática, "nacional" passou a significar "reconhecido como nacional pelo Sudeste", isto é, pelo eixo Rio-São Paulo e pelo conjunto de instituições, mídias e circuitos que formam o que chamo de razão sudestina.
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Aqui proponho uma paráfrase crítica de Roberto Schwarz. Em "Nacional por subtração", o texto sobre cultura mais badalado da Universidade de São Paulo (USP), ele argumentou como nossa vida cultural imita formas europeias que não encaixam na sociedade brasileira, e defendeu que a tarefa crítica é subtrair o excesso de formalismo importado para que apareça o núcleo nacional.
Não se trata de enfeitar moldes europeus com "cor local", mas de revelar, nas contradições de classe, raça e poder, o Brasil que se impõe apesar dos modelos. O gesto foi decisivo, mas tem um ponto cego: o Brasil de Nacional por subtração é o Brasil visto desde o Sudeste, sem nomear-se como tal. O ensaio opera no eixo "Brasil 'versus' Europa", mas pouco olha para o eixo "Sudeste 'versus' resto do Brasil".
Não problematiza a forma pela qual um país continental deixa-se representar por um recorte sudestino, social e racial estreito, que fala em nome de todos sem se indicar no mapa. E assim foi construído culturalmente o Brasil. Eles dizem o que é filé, sempre o que eles fazem e a gente é sempre osso no açougue simbólico.
Por isso, proponho deslocar a fórmula. Se Schwarz descreveu um nacional por subtração (frente à Europa), hoje vivemos um nacional por subordinação (frente ao Sudeste). Para ser reconhecida como "brasileira" sem adjetivos, uma obra precisa alinhar-se às linguagens, critérios e instâncias de consagração do polo dos donos do País.
Ou precisa enfrentar corajosamente, como fez Kleber, a sanha dos definidores dos que falam pelo Brasil. "O Agente Secreto" é esteticamente e politicamente o que chamo de "Nacional por insubordinação.".
O campo cultural brasileiro se organiza em torno de um centro que concentra capital simbólico, econômico e institucional: grandes editoras, redes de TV, jornais, gravadoras, festivais, plataformas digitais ancoradas em Rio de Janeiro e São Paulo. Ali se definem as categorias legítimas: o que é "alta cultura" ou "popular", "vanguarda" ou "atraso", "regional" ou "nacional". A indústria cultural consolidou, a partir do Sudeste, uma "imagem do Brasil" que naturaliza o ponto de vista carioca-paulista como centro e trata outras regiões como fonte de tipos pitorescos, sotaques e paisagens exóticas.
Chamo de razão sudestina esse dispositivo simbólico-midiático que faz a experiência de um pedaço do País aparecer como equivalente à experiência do Brasil. Sua força está em definir o que conta como neutro e universal: o português dos telejornais é ouvido como "sem sotaque". Quando fui repórter do "Bom Dia São Paulo" era enviado pro Rio toda semana para tirar meu sotaque com Glória Beuttenmuller. As paisagens urbanas de Rio de Janeiro e de São Paulo viram sinônimo de modernidade. O sertão, as periferias do Recife ou pequenas cidades nordestinas são marcadas como "típicas", "pitorescas". A não ser que se sujeite a ser tratado como exótico ou claramente domesticado e submetido ao bom mocismo.
Nesse contexto, nacional por subordinação significa que a nacionalidade de uma obra depende menos do que ela diz e mais de onde fala. Um filme sobre a ditadura situado num apartamento de classe média em Ipanema é automaticamente percebido como capítulo da "história do Brasil"; um filme sobre a mesma ditadura que acompanha um professor perseguido no Recife corre o risco de ser lido como "olhar local", interessante, mas limitado. Como se o trauma político fosse universal quando filmado desde a varanda carioca e particular quando filmado desde a varanda nordestina.
"O Agente Secreto" embaralha essa fronteira. Ao situar a conspiração, a violência de Estado e as pequenas estratégias de sobrevivência num Recife concreto, com ruas, cinemas, blocos de carnaval e bairros populares reconhecíveis, o filme afirma que a história brasileira passa por ali, e não apenas "também ali". Não estamos diante de um cartão-postal exótico, mas de um ponto de vista brasileiro situado, que recusa a obrigação de "neutralizar" sotaques, corpos e paisagens para ser levado a sério como reflexão sobre o País.
Quando a crítica ou o marketing tentam corrigir essa aposta com o rótulo de "regional", ou vez ou outra jogando um artista deste outro Brasil no palco para a consagração, opera-se uma nova forma de subordinação: o filme pode até representar o Brasil lá fora, desde que aceite ser tratado cá dentro como particularismo. A razão sudestina funciona assim, como filtro: ela decide o que ascende à condição de "Brasil em geral" e o que permanece na prateleira do típico, do pitoresco, do "Nordeste de Kleber" ou das "loucuras de Karim ".
É a mesma lógica que vê como universais as neuroses de uma classe média branca da Zona Sul e como "casos de identidade" as experiências de periferias, sertões, interiores. E o que é pior, parte dos artistas cearenses, a partir do mais ignorante de todos (imaginem quem é?) reclamou porque eu disse que somos tratados como a semi-periferia nacional de um País periférico internacionalmente. Até uma pretensa crítica cultural alegou que o conceito de periferia cultural não existe mais. Agora na web tudo é centro. Meu Deus, quanta ingenuidade. A internet inventa os Whindersson da vida para criar essa fantasia.
Pensar um nacional por insubordinação, portanto, é deslocar o problema: não perguntar se "O Agente Secreto" é "regional demais", mas por que ainda pressupomos que o padrão nacional está dado no Sudeste. Ao nomear a razão sudestina, o filme - e a polêmica em torno dele - ajudam a desnaturalizar esse ponto de vista privilegiado e a abrir espaço para outras centralidades possíveis. Talvez seja isso o mais incômodo: quando Recife, Fortaleza, Salvador, Belém, se põem a contar a história do Brasil não como exceção, mas como regra, o País deixa de caber na estrutura mental de quem confundiu o Brasil com São Paulo e Rio que mandam, e acredita que o resto do Brasil só deve obedecer.
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