Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Brasil: eleição com ruído externo e vitória por micromargens
A bola de cristal abriu o ano como uma live: barulho, interferência, coro e uma política que parece disputar não só votos, mas o próprio ecossistema do real. A cena recorrente é esta: eleição complexa, com ruído internacional (o "método Trump" atravessando telas e imaginários) e resultado decidido no fio: vitória apertada, não por onda, mas por micromargens (abstenção, medo, fadiga, indignação, pequenos deslocamentos urbanos).
Ceará: O "Espaia Brasa" e a polarização forçada
No Ceará, 2026 começa com uma evidência simples: terceira via não tem ar-condicionado suficiente para aguentar o calor. O Espaia Brasa (Ciro Gomes) não entra para "mediar": entra para puxar o tabuleiro para a polarização, reorganizando o campo pela lógica mais eficiente do momento, o bloco anti-PT, com costuras e alianças que trocam pureza por musculatura. A pré-candidatura de Ciro ao governo do Ceará em 2026 foi confirmada publicamente em dezembro de 2025.
Como efeito colateral, candidaturas como a de Eduardo Girão aparecem como terceiro polo barulhento: ou viram combustível de "voto útil", ou viram rachadura no anti-PT (e, em política, rachadura é destino).
Economia: inflação baixa, crescimento alto, elite em pânico
A visão econômica é o retrato de uma contradição nacional: inflação baixíssima (1% nos últimos 12 meses, a grande mídia sussurrou este dado), crescimento acima de 3%, e, mesmo assim, a elite em estado de alerta e histérica, não porque os números sejam ruins, mas porque os números não obedecem ao roteiro. Em certos círculos, prosperidade só parece "segura" quando vem acompanhada de medo; sem medo, a prosperidade vira afronta.
Internacional: midterms, Trump na própria cozinha e o casal Obama como "máquina de ordem"
Nos Estados Unidos, a bola de cristal escreve o nome correto da disputa: midterm elections - eleições de meio de mandato, quando se escolhe toda a Câmara e parte do Senado, além de várias disputas estaduais. A próxima é em 3 de novembro. Na visão, Trump entra em modo incêndio: muito grito, muito "estado de guerra" - mas preso na própria cozinha, lutando com panela e vazamento. E, do outro lado, surge a hipótese narrativa: Barack e Michelle Obama assumindo as rédeas do Partido Democrata não como candidatura (Obama está limitado a dois mandatos), mas como disciplina e aclamação organizada.
Cultura Brasil: o ano abre com o Oscar e "O Agente Secreto"
Na cultura nacional, 2026 começa com tapete vermelho e nervos à flor da pele. "O Agente Secreto" (Kleber Mendonça Filho) entra na temporada como candidato forte: o filme apareceu na shortlist do Oscar em categorias que incluem Melhor Filme Internacional e a nova categoria de Casting, e o cronograma oficial coloca as indicações em 22 de janeiro de 2026 e a cerimônia em 15 de março de 2026.
A bola de cristal, porém, adora uma crueldade elegante: ela entrega a estatueta de Filme Internacional, mas mostra o Brasil batendo na trave em Melhor Ator: a glória chegando pelo time e escapando no individual, como se a história exigisse sempre um restinho de dor para o País ter assunto até junho.
Cultura Ceará: Fortaleza "ligada nos 300", festa grande e nacionalização parcial
No Ceará, o ano cultural abre com aniversário de gente grande: Fortaleza 300 anos. A prefeitura apresentou o Réveillon 2026 como início das comemorações, com programação descentralizada em três polos (Aterro da Praia de Iracema, Messejana e Conjunto Ceará) e o slogan "Ligada nos 300".
A visão é dupla: a festa vai ser bonita, com Cidade em modo acontecimento, mas a nacionalização simbólica ainda vem incompleta, porque reconhecimento, no Brasil, é máquina: precisa de rede, vitrine, consagração, carimbo. A Cidade sobe ao palco e o País, muitas vezes, só escuta quando o som vem "validado" do eixo sudestino.
Para o leitor ter uma ideia, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) rejeitou um projeto sobre Fortaleza 300 com filmes de Karim, Joe Pimentel etc. Imaginem se fosse o aniversário de São Paulo ou Rio? Escárnio com papo de regionalização de recursos.
O grande enigma de 2026: a nova extrema direita controla o mundo ou tropeça na própria teologia?
A bola de cristal aqui falha, mas… justamente por isso, acerta no diagnóstico do tempo. A pergunta não é só eleitoral: é civilizacional. Existe uma chance de 2026 marcar a consolidação de uma nova ordem de sombras, em que extrema-direita e plataformas digitais governam não apenas instituições, mas percepções.
O enigma reaparece pela chave de Agamben: da teologia cristã derivam dois paradigmas "antibinários" e funcionalmente conectados, a teologia política (soberania e transcendência do poder) e a teologia econômica (oikonomia: administração do mundo, governo como gestão).
Nessa leitura, a secularização não é exatamente "fim da religião"; pode ser deslocamento de formas, uma "assinatura" que migra e continua operando sob outra roupa (tema trabalhado por Agamben em sua teoria das assinaturas, em diálogo com Foucault).
Trump aparece como a face da aclamação (política como culto), e as big techs como a face da oikonomia (poder como infraestrutura, regra invisível, modulação de condutas). O horizonte, descrito em outra linguagem pelo grego Varoufakis, com sua tese do "tecnofeudalismo" e dos "senhorios" do capital em nuvem, é a possibilidade de um novo medievo tecnológico, com pedágios digitais e dependência estrutural de plataformas.
Só que, justamente aqui, a bola não enxerga: 2026 pode ser a porta de entrada… ou o ano em que o capitalismo de plataformas mostra suas fraquezas. Veremos a força de Trump nas urnas. A não ser que ele destrua finalmente a combalida democracia americana.
E, por uma vez, a previsão termina sem bravata: para esta pergunta, o vidente sem futuro não entrega destino. Só aponta o rumo com reflexão. Vidente não é para acertar. É para fazer pensar.
Notas pra o leitor não esquecer alguns pontos
1. Sobre "midterm elections" (eleições de meio de mandato): definição e o que está em disputa;
2. Data das eleições americanas de 2026 (3/11/2026) e ciclo eleitoral;
3. Limite de dois mandatos presidenciais (22ª Emenda) e formulação oficial;
4. Shortlists do Oscar 2026, datas de indicações (22/1/2026) e cerimônia (15/3/2026);
5. Réveillon 2026 como abertura dos 300 anos de Fortaleza ("Ligada nos 300") e programação em três polos;
6. Confirmação pública da pré-candidatura de Ciro Gomes ao governo do Ceará em 2026 (PSDB) e movimentações políticas de dezembro de 2025;
7. Pré-candidatura de Eduardo Girão e apelos por "coerência" na direita. Presença de lideranças nacionais no lançamento;
8. Agamben e a distinção teologia política/teologia econômica (oikonomia) em torno de governo e economia;
9. Agamben, teoria das "assinaturas" e diálogo com arqueologia/genealogia (linhagem foucaultiana);
10. Varoufakis e a tese do "tecnofeudalismo" (plataformas como extração de renda e poder infraestrutural).
Análises, opiniões e fatos sobre política, educação, cultura e mais. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.