Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
A cena aconteceu numa boutique da Madison Avenue, nos anos 1990. Donald Trump seguiu uma mulher pelos corredores espelhados, esperou que ela entrasse no provador. O que veio depois foi violência, ele mesmo descreveu, com aquela minúcia obscena que caracteriza certos confessionais involuntários. Décadas mais tarde, já presidente dos Estados Unidos pela segunda vez, o mesmo homem declararia que os venezuelanos são "feios", reduzindo milhões de pessoas a uma caricatura digna de um cafetão de cassino falido.
Mas Trump não é uma aberração. Ele é o grande ator, no sentido teatral e histórico, de um momento que Otto Maria Carpeaux, o mais culto intelectual brasileiro que tive o prazer de reler neste fim de ano de algum ócio, antecipou quando escreveu sobre a natureza camaleônica da burguesia: aquela "classe que renasce de suas próprias crises, que transforma cada derrota em oportunidade, que não conhece princípios permanentes além da acumulação". A burguesia, observou Carpeaux, "veste a máscara que o momento exige, liberal quando precisa de mercados, autoritária quando precisa de ordem, democrática quando precisa de legitimidade".
Trump é a máscara perfeita para este terceiro grande renascimento burguês, onde o capital financeiro se funde com a inteligência artificial, a web se torna infraestrutura de controle, e as big techs substituem os barões da indústria como verdadeiros senhores do mundo.
Meu filho o chama de "homem laranja", um apelido que, na sua crueldade infantil, captura algo essencial: a artificialidade grotesca de um momento em que a própria realidade parece ter sido processada por filtros do Instagram.
A história da burguesia não é linear. É feita de renascimentos, de momentos em que tudo parece prestes a desmoronar e, de repente, uma nova configuração emerge, mais poderosa que a anterior. E essas viradas sempre vieram acompanhadas de revoluções na comunicação e na cultura.
A primeira grande virada aconteceu no início do século XIX. A imprensa burguesa se expandiu, criando pela primeira vez uma opinião pública de massa. Balzac foi o cronista dessa transformação. "A Comédia Humana" não é apenas literatura, é o raio-X de uma classe que aprendeu a transformar tudo em mercadoria, inclusive suas próprias emoções. Nas páginas de Balzac, banqueiros, jornalistas, cortesãs e especuladores dançam uma valsa onde cada gesto é calculado, cada palavra tem preço.
Como escreveu Carpeaux: "Balzac revelou o segredo da burguesia, sua capacidade de converter cada aspecto da vida humana em transação, de transformar amor, arte, honra e até revolução em oportunidades de lucro". A imprensa não apenas noticiava o mundo burguês: ela o construía, legitimava, naturalizava. Ler um jornal era aprender
a pensar como burguês.
A segunda virada veio em 1941, numa sala de cinema escura onde um trenó de infância queimava numa fornalha. "Cidadão Kane" não foi apenas o melhor filme já feito, foi a certidão de nascimento da consciência moderna sobre seu próprio aprisionamento. Orson Welles tinha 25 anos quando mostrou ao mundo que o magnata da comunicação Charles Foster Kane não vendia jornais: vendia realidades. "As pessoas vão pensar o que eu mandar elas pensarem", diz Kane. E vendeu. E funcionou.
Hollywood nasceu como fábrica de sonhos e Welles a expôs como fábrica de consenso. Mas aqui está o twist cruel: o próprio filme se tornou commodity. A RKO Pictures quase o destruiu. William Randolph Hearst, o Kane real, tentou queimar todas as cópias. Welles nunca mais teve controle total sobre um filme. O sistema digestivo da indústria cultural engoliu até sua crítica mais feroz e a transformou em cânone, em respeitabilidade, em mercadoria de prestígio acadêmico.
O cinema, o rádio, a televisão, a mass media criaram uma forma de controle que dispensava violência direta. Por que prender dissidentes quando você pode dar a eles um talk show? Por que censurar quando pode saturar com mil canais de nada? Kane construiu Xanadu, aquele mausoléu obsceno de objetos sem memória, e Welles mostrou: não é uma metáfora, é um projeto. A burguesia aprendeu que imagens colonizam mais profundamente que argumentos. Um beijo de Clark Gable vale mais que dez manifestos.
Welles morreu fazendo comerciais de vinho. Kane venceu.
Agora vivemos a terceira virada. E é a mais obscena. Em dezembro de 2024, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg jantaram com Donald Trump em Mar-a-Lago. Não foi um jantar qualquer, foi uma coroação. Os mesmos homens que, em 2016, sussurravam nos corredores de São Francisco e Seattle sobre o perigo que Trump representava para a democracia, posavam para fotos, sorriam, faziam doações milionárias para a posse. Bezos, dono do Washington Post, o jornal que expôs Watergate, proibiu a redação de publicar um editorial contra Trump. Zuckerberg, que testemunhou no Congresso sobre interferência eleitoral russa via Facebook, agora janta e ri com o homem que tentou um golpe de estado.
A burguesia sempre soube quando mudar de lado. Carpeaux escreveu: "A burguesia não tem amigos permanentes nem inimigos permanentes, apenas interesses permanentes. E o interesse supremo é a sobrevivência da própria burguesia". Trump, o psicopata vulgar, o estuprador confesso, o racista desavergonhado, deixou de ser uma ameaça quando se tornou útil. Útil para quê? Para o projeto que Bezos, Zuckerberg, Elon Musk e os outros senhores das big techs compartilham: a fusão final entre Estado e corporação, a dissolução de qualquer fronteira entre poder político e poder econômico.
A inteligência artificial não é apenas uma tecnologia, é a realização final do sonho burguês: a capacidade de transformar comportamento humano em dados, predição, controle. O capitalismo financeiro, essa abstração de abstrações, encontrou na IA seu par perfeito: números que geram números, capital que se reproduz sem precisar da mediação
incômoda do trabalho humano.
Bezos construiu um império vendendo livros e terminou espionando nossas casas com a Alexa. Zuckerberg prometeu conectar o mundo e entregou uma máquina de vigilância que vende nossas intimidades para o melhor lance. Musk se apresenta como gênio visionário e usa satélites para controlar a infraestrutura de comunicação de países inteiros. Eles não são vilões de quadrinhos, são a burguesia fazendo o que sempre fez: se adaptando, renascendo, vestindo nova máscara.
A conversa com meu filho
Meu filho chama Trump de "homem laranja mau". E ele está certo. Mas como explico a ele o que estamos vivendo?
Nunca antes enfrentamos uma batalha em que as forças da burguesia fossem tão avassaladoras. Nos tempos de Balzac, ainda havia espaços fora do mercado, campos, vilarejos, modos de vida que a imprensa burguesa não alcançava completamente. Nos tempos de Welles, ainda havia um mundo analógico, conversas que aconteciam longe das câmeras, pensamentos que não eram rastreados e arquivados.
Agora? Agora não há fora. O algoritmo nos conhece antes de nos conhecermos. A IA prevê nossos desejos antes de os sentirmos. A web medeia cada gesto, cada palavra, cada segundo de atenção. E os senhores dessa infraestrutura jantam com o tirano, riem, brindam. Eles construíram uma prisão que parece liberdade, um totalitarismo que se veste de democracia, uma servidão
que chamamos de conexão.
Como explico ao meu filho que o homem laranja mau não é o problema principal? Que ele é apenas o sintoma, a máscara grotesca de algo muito maior e mais profundo? Que Bezos e Zuckerberg, com seus sorrisos educados e suas doações filantrópicas, são mais perigosos que mil Trumps porque construíram o sistema que tornou Trump possível e inevitável?
A verdade é esta: não sei como explicar. Porque esta terceira virada é diferente. Nas outras, havia tempo para resistir, para se reorganizar, para imaginar alternativas. Agora, o tempo é controlado pelo algoritmo. A resistência é mapeada e neutralizada antes de ganhar força. As alternativas são compradas ou destruídas no nascedouro.
Carpeaux escreveu que "a burguesia sobrevive porque sabe morrer e renascer com novo rosto". Trump é esse novo rosto, vulgar, obsceno, absurdo.
O que me apavora não é Trump. O que me apavora é não ter resposta quando meu filho perguntar: "Pai, por que vocês
deixaram isso acontecer?"
Talvez a única resposta honesta seja: porque subestimamos a burguesia. Pensamos que ela tinha limites morais, freios, algum resquício de humanidade. Pensamos que um estuprador confesso não poderia ser presidente. Pensamos que bilionários não jantariam abertamente com fascistas. Pensamos que havia um ponto onde o absurdo seria insustentável.
Estávamos errados.
Meu filho chama o homem laranja de mau. E eu não corrijo. Porque ele precisa saber que o mal existe, que é real, que está no poder. O que não sei é se consigo ensiná-lo a lutar contra algo tão vasto, tão total, tão perfeitamente integrado à própria estrutura de nossas vidas.
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