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TEXTO TICTOC. UMA CHRONIQUE PAS COMME LES AUTRES
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Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense

Paulo Linhares arte e cultura

TEXTO TICTOC. UMA CHRONIQUE PAS COMME LES AUTRES

UM RESUMO DA COMÉDIA (e tragédia) HUMANA DA SEMANA
Tipo Análise
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O melão amarelo da marca 'Rei' é um dos carros-chefe entre os produtos da Itaueira
O melão amarelo da marca 'Rei' é um dos carros-chefe entre os produtos da Itaueira

MERCOSUL EUROPA: QUEM GANHA NO CEARÁ?

Além de bebermos vinho e champanhe mais barato, o que vai significar o acordo Mercosul/Comunidade Europeia para o Ceará?

Estudo feito pelo amigo Flávio Ataliba Barreto e os economistas Thiago de Araújo Freitas, João Mário Santos de França e Pedro Avelino me permite ver esses pontos:

O bom: Melão já cresceu 27,5% nas exportações para Europa. Camarão, caju industrializado, mel e frutas tropicais têm um mercado gigante esperando. A tarifa zero é real.

Porém: O Nordeste foi a única região que caiu nas exportações para a UE (-12,3%). Por quê? Falta estrutura. A Europa quer rastreabilidade, certificação, padrão ESG. Pequeno produtor desorganizado não embarca.

A conta: O acordo abre uma porta enorme. Mas o Ceará precisa de infraestrutura logística certificação sanitária produtor organizado.

Senão, assistimos o Sul faturar enquanto nosso melão apodrece no porto. Oportunidade tá aí. Aproveitá-la é outra história.

Ao leitor: Escrevi esta nota na quarta-feira, 21, pela manhã. À tarde, o parlamento do Mercosul aprovou uma revisão jurídica que, na prática, adia o acordo para daqui a dois anos. A Europa, ajoelhada e humilhada pelo tirano Trump, mostra-se incapaz de reagir. Já vimos esse filme.

O ACORDO DAS FACÇÕES: A PAZ DOS CEMITÉRIOS

Há pouco tempo escrevi sobre o acordo do CV, Comando Vermelho, depois de dominar toda a Cidade. Ele aconteceu. E saiu exatamente como escrevi.

Guardiões do Estado (GDE)? Morreu. Terceiro Comando Puro (TCP)? Não durou. CV ficou sozinho no pedaço.

O símbolo da hegemonia? Um jogo de futebol no Pirambu entre facções rivais "selando a paz".

Ironia: a GDE nasceu de torcida organizada. Morreu numa pelada…

Os números: dezembro teve 235 Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), menor desde junho. A "pacificação 2.0" chegou.

É paz? É. Mas paz de cemitério.

E ninguém se pergunta: onde está o Estado nisso tudo? Topou o acordo?

Joe Alwyn e Jessie Buckley em cena do filme 'Hamnet: A Vida Antes de Hamlet'
Joe Alwyn e Jessie Buckley em cena do filme 'Hamnet: A Vida Antes de Hamlet'

AS DORES DE HAMLET E AS MINHAS

A sinopse: Hamnet é o filho de Shakespeare que morre aos 11 anos. A dor do pai vira Hamlet, a peça. A tragédia pessoal vira arte.

Vi meu pai perder dois irmãos (Adriana e André). Cresci enfrentando esses sofrimentos.

Por isso estou lendo o livro agora. Vendo se consigo assistir o filme depois.

O livro é mais razão, menos catarse emocional. Dá pra pensar na dor sem se afogar nela.

A questão: como a gente transforma perda em criação? Como Shakespeare fez Hamlet a partir de Hamnet?

É sobre isso: a dor que paralisa vs. a dor que produz.

Estou no meio do livro. Ainda não sei se vou aguentar o filme.

Mas sei que essa história conversa comigo de um jeito que poucos livros conversam.

TENHO UM FUSION E UM VIOLÃO

A Posco, gigante coreana, ergueu a CSP no Pecém. Maior obra privada do Ceará.

Contrato de US$ 5,5 bilhões. Pago integralmente.

Depois que entregou a usina em 2016, a Posco simplesmente parou de pagar.

Trabalhadores? Calote.

Fornecedores? Calote.

Fisco brasileiro? Calote.

Total da conta: quase R$ 1 bilhão em dívidas.

E o melhor: pediu falência deixando

um carro fusion velho e R$ 109 na

conta bancária.

Recebeu R$ 28 bilhões. Deixou R$ 109.

É tipo você ganhar na Mega-Sena, gastar tudo, e deixar um Pix de R$ 5 pra pagar o aluguel atrasado.

A lição: capital internacional sabe entrar bonito e sair melhor ainda.

O Ceará ficou com a usina (que é boa) e com o calote (que é péssimo).

Bem-vindo ao capitalismo periférico.

AS CARTINHAS DO TRUMP

Trump mandou uma carta ao primeiro-ministro da Noruega reclamando que não ganhou o Nobel da Paz. Sim, você leu certo.

A lógica Trump: "Não me deram o Nobel? Então não preciso mais pensar só em paz. Agora penso no que é bom pros EUA".

E o que é bom? Tomar a Groenlândia da Dinamarca.

A justificativa? Obra-prima: "A Dinamarca não tem documentos de propriedade. Foi só um barco que desembarcou lá. Mas nós também tivemos barcos".

Tradução: "Eu quero, então é meu".

E tem mais: "A Otan deveria fazer algo pelos EUA. O mundo não estará seguro sem controle total da Groenlândia".

Resumo: Não ganhei prêmio, então vou invadir uma ilha.

Bem-vindos ao segundo mandato de Trump: onde cartinhas diplomáticas parecem prints de grupos de bêbados do WhatsApp às 3 horas.

EMILIO HINKO E A BEIRA-MAR

Danilo Lopes contou essa história no Instagram e recriou tudo com IA. Genial.

1929. Chega em Fortaleza um arquiteto húngaro formado em Budapeste, trabalhando em Gênova.

Nome: Emilio Hinko.

Ele olha pro litoral de Fortaleza e vê... Gênova.

No lombo dum jumento, com Murilo de Alencar, vai da Praia de Iracema ao Mucuripe.

E projeta o futuro: a Beira-Mar.

Enquanto isso, ele fazia casas 30% mais baratas na região do Outeiro (Praia de Iracema).

A sacada: Fortaleza ia crescer pro leste.
E ia crescer bonito.

A Beira-Mar que conhecemos hoje? Sonho de um húngaro que cruzou o Atlântico e viu no Mucuripe a Ligúria italiana.

Fortaleza moderna nasceu da visão de um gringo no lombo de um jumento.

Urbanismo é só isso: imaginação aposta no futuro.

ALDEOTA E A CLASSE MÉDIA DE JÁDER DE CARVALHO

Estava botando o ponto final no meu livro e pensei: falta criar um díptico com "Classe

Média" (1937), o primeiro de Jáder de Carvalho, e "Aldeota" (1963), o último.

Problema: não achei minha preciosa edição de "Classe Média".

Virei a casa de cabeça pra baixo. Tive a petulância de incomodar o filho do Jáder.

Quem me socorreu? Lúcio Alcântara. Gentil, culto.

Lúcio não só achou o livro como vamos fazer uma reedição pela editora dele.

Por quê isso importa?

Jáder de Carvalho mapeou Fortaleza em dois romances separados por 26 anos. De um lado, a classe média passando fome nos anos 1920 (quando o livro se passa). Do outro, a Aldeota (fim dos anos 1950 e começo dos 1960) se consolidando como símbolo de distinção social e a nova elite (um bando de malandros) ganhando dinheiro com contrabando (na palavra já vem bando).

É sociologia literária. É Fortaleza se inventando como uma cidade burguesa e desigual.

Aguarde, Fortaleza. A análise completa deste díptico vem aí.

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