Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Paulo Sérgio Bessa Linhares é um antropólogo, doutor em sociologia, jornalista e professor cearense
Fernando Haddad é, hoje, o melhor quadro do PT. O mais sofisticado intelectualmente. O mais sensível, um libanês paulista (aprendeu economia na loja de tecidos do pai e na Universidade de São Paulo, a USP) que tenta, com paciência de quem monta um quebra-cabeças, entender o Brasil. E o mais sensato, para o bem e para o mal. Às vezes, conservador demais.
Ministro da Fazenda de um governo que navega entre a pressão do mercado financeiro e a promessa histórica de justiça social, Haddad carrega nos ombros o peso de ser simultaneamente o intelectual e o gestor, o filósofo e o tecnocrata. É uma posição ingrata. E é dela que nasce este livro.
O novo livro de Fernando Haddad não é apenas um ensaio de economia política. É também uma autobiografia intelectual disfarçada de tratado teórico. Começa, intelectualmente, bem entendido, na rua Maria Antônia, aquela rua estreita de São Paulo onde, em 1968, a Filosofia da USP e o Mackenzie se enfrentaram a pedradas e tiros, e onde uma geração aprendeu que pensar e lutar eram a mesma coisa.
Dali, Haddad nos conduz por um percurso lento, um economês meio erudito, às vezes excessivamente paciente, que vai da escravidão colonial à União Soviética, da segunda servidão no Leste Europeu à China de Xi Jinping, da acumulação primitiva de capital às plataformas digitais. Caminhos diversos, como diz o subtítulo. Mas o destino, insiste Haddad, é comum: o capitalismo se mundializou por todas essas vias, inclusive pela via que se dizia anticapitalista.
A tese central é original. Haddad argumenta que as experiências socialistas do século XX, a União Soviética, a China maoísta, não foram alternativas ao capitalismo, mas formas particulares de acumulação primitiva de capital.
A industrialização stalinista separou os trabalhadores dos meios de produção com brutalidade comparável à dos cercamentos ingleses; a riqueza acumulada foi, com o fim do regime, privatizada pelos oligarcas de Iéltsin. Caminho diverso, destino comum. E quando, nos anos 1970, o capitalismo ocidental começou a desmontar o paradigma fordista pela via da destruição criativa schumpeteriana, a União Soviética ficou para trás. A tolerância do capitalismo com a inovação venceu a Guerra Fria.
Essa reconstrução histórica ocupa boa parte do livro e é competente, como reconhece a excelente resenha de Celso Rocha de Barros na revista Piauí. Mas é nos capítulos finais que o livro ganha força. Ali, Haddad deixa de ser historiador do socialismo real e se torna um pensador refinado da economia política contemporânea.
E é ali que ele propõe o conceito que dá nome ao livro: "Capitalismo Superindustrial". O nome soa estranho, como notou Celso, porque o consenso é que a indústria perde centralidade. Haddad discorda: o que perdemos foi o emprego industrial, não a lógica industrial. A cultura se organiza como indústria cultural, os serviços adotam a disciplina da linha de montagem, até as igrejas racionalizam sua administração como fábricas de fé. O super não indica superação, indica intensificação. A indústria não morreu. Ela se espraiou por todas as esferas da vida.
Para chegar a essa tese, Haddad percorre com rigor impressionante o debate contemporâneo no campo da economia política. Mapeia três posições que disputam a descrição do presente: os teóricos do capitalismo cognitivo (Yann Moulier-Boutang, Carlo Vercellone, André Gorz), que sustentam que o conhecimento substituiu a máquina como principal força produtiva; os teóricos do tecnofeudalismo (Cédric Durand, Yanis Varoufakis), que argumentam que as plataformas digitais operam como feudos extratores de renda, não como empresas capitalistas e McKenzie Wark, que identifica uma nova classe vetorialista que controla o fluxo de informações e subordina tanto proprietários de terra quanto capitalistas tradicionais.
Haddad lê todos com atenção e recusa todos. Para ele, não saímos do capitalismo e chamar o presente de pós-capitalismo ou tecnofeudalismo mais confunde do que esclarece. O que Wark chama de vetor, Durand de renda intangível e Varoufakis de capital-nuvem, Haddad lê como superlucro gerado pela endogeneização da inovação.
Daí deriva uma nova configuração de classes. De um lado, os proprietários, naturalmente coesos, unidos pela propriedade como fonte comum de riqueza. De outro, três classes não proprietárias fragmentadas e dispersas: o proletariado (forças produtivas), o cognitariado (forças criativas) e o precariado (forças destrutivas, no sentido de que são destruídas pelo sistema).
Numa paráfrase brilhante de Tolstói: todas as classes proprietárias se parecem na felicidade, cada classe não proprietária é infeliz à sua maneira. A emancipação, conclui Haddad recusando Hegel, não pode significar reconciliação, só pode significar expansão do espectro da diferença.
Bem, tudo o que descrevi até agora é a parte inicial do livro. E tudo o que vou dizer agora é o que falta ou é o que ele começou e deve concluir.
Celso Rocha de Barros tem razão quando diz que a fraqueza substantiva do livro é não avançar sobre os projetos de futuro possíveis. Eu acrescento: Haddad não avança porque não usou os instrumentos teóricos para ir além da economia política.
E esse é o segundo ponto, o mais problemático, Haddad é um leitor voraz: cita dezenas de autores: Gorz, Wark, Boutang, Vercellone, Durand, Varoufakis, Veltz, Haskel e Westlake, Galbraith, Polanyi, Harvey, Negri, Standing, Beirardi, Bucci... Mas todos pertencem ao mesmo campo discursivo: economia política, regulacionismo, marxismo heterodoxo, pós-operaísmo. Não há um único filósofo da técnica. Não há Gilbert Simondon, não há Yuk Hui. E, sobretudo, não há Bernard Stiegler.
A ausência de Stiegler neste livro é de fato uma falha teórica. Haddad diz que batizou seu conceito nos anos 1990. Cita Pierre Veltz (2017), autor de "La Société hyper-industrielle", como precursor de conceito semelhante, embora menos apropriado. Mas Stiegler, que morreu em 2020, usou o termo hiperindustrial ao longo de toda a sua obra, desde "De la misère symbolique" (2004-2005), passando pela trilogia "Mécréance et discrédit", que tem três volumes: "1. La décadence des démocraties industrielles", "2. Les sociétés incontrôlables d'individus désaffectés", "3. L'esprit perdu du capitalisme" (2006), e finalmente "La société automatique" (2015).
E o hiperindustrial de Stiegler não é apenas um estágio econômico. É um regime farmacológico (que ele tomou emprestado do seu mestre Derrida) no sentido do "pharmakon" grego, aquilo que é simultaneamente remédio e veneno. A mesma técnica que pode individuar, pode desindividuar. A mesma plataforma que conecta, pode proletarizar.
Quando Haddad fala do cognitariado que não pode estar submetido a processos objetificantes, está descrevendo, sem saber, exatamente o que Stiegler chama de deproletarização ("déprolétarisation") seria então a reconquista desses três registros de saber, o que Stiegler vincula a uma economia contributiva — um modelo em que os indivíduos voltam a ser produtores de saber e não meros consumidores passivos, a preservação dos saberes viver, fazer e teorizar.
Mas Stiegler mostra que o capitalismo hiperindustrial faz justamente o contrário: proletariza até as forças criativas, capturando a atenção, automatizando as decisões, destruindo a capacidade mesma de pensar.
Quando Varoufakis, no livro de Haddad, fala dos algoritmos que deixam de ser passivos e viram agentes, conduzindo os navegantes da rede, está tocando na captologia e na economia da atenção que Stiegler teorizou com profundidade incomparavelmente maior.
Quando Gorz declara que o capitalismo cognitivo é a crise do capitalismo, está ecoando Stiegler sem nomeá-lo. Quando Vercellone fala de exploração de subjetividades heterogêneas que se estende além da jornada de trabalho para a totalidade do tempo social, está descrevendo o que Stiegler chama de proletarização generalizada.
O problema de fundo é mais largo que a ausência de um autor. Infelizmente, Haddad fica preso à economia política. Seu vocabulário é sempre capital, renda, lucro, superlucro, classe, propriedade. Quando o objeto pede sociologia da técnica, ele não tem. Quando pede antropologia do digital, ele não tem. Quando pede estética da atenção, ele não tem.
A técnica aparece em seu livro como variável econômica: ativos intangíveis, escalabilidade, propriedade intelectual. Nunca como "pharmakon". Nunca como aquilo que simultaneamente cura e envenena, individua e desindividua.
Ora, o capitalismo contemporâneo chame-se superindustrial, hiperindustrial ou de captura algorítmica (como eu chamo) opera precisamente por uma inversão que a economia política sozinha não consegue decifrar. Para pensar essa inversão, não basta Marx, é preciso Foucault (a biopolítica como gestão da liberdade), Deleuze (as sociedades de controle e a modulação contínua), Stiegler (a proletarização cognitiva e afetiva), Yuk Hui (as cosmotécnicas plurais que mostram que o algoritmo não é destino, é escolha civilizacional).
E é preciso, também, ouvir vozes que o marxismo ortodoxo sistematicamente recusa: Nego Bispo, com sua contra-colonização e seus modos de vida que resistem à mobilização produtiva total; Ailton Krenak, com sua recusa da vida reduzida à utilidade; Viveiros de Castro, com seu multinaturalismo que desafia o pressuposto de um mundo único quantificável, um pressuposto que é a condição de possibilidade de toda captura algorítmica.
Nada disso diminui a importância do livro "Capitalismo Superindustrial". É um livro corajoso, de um intelectual sério que pensa com rigor num país que desaprendeu a ler livros complexos sobre ele mesmo.
Mas Haddad, como o PT que ele representa, para cedo demais. Fica na economia política quando o mundo pede uma ecologia de saberes. Mapeia com brilhantismo as formas de apropriação do valor sem perguntar o que acontece com o desejo, com a atenção, com a capacidade de sonhar quando o capital-nuvem captura não apenas renda, mas o próprio tempo de consciência. Seu livro descreve a estrutura óssea do capitalismo contemporâneo. Falta a carne, falta o sangue, falta o sistema nervoso.
O capítulo final de "Capitalismo Superindustrial" é o livro que Fernando Haddad ainda precisa escrever. Espero que o escreva.
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