Foto de Pedro Salgueiro
clique para exibir bio do colunista

Escreveu livros de literatura fantástica e de contos, como

Epitáfio

Tipo Notícia

Fui, sou e serei, para sempre, apenas um sertanejo exilado nesse litoral de ilusões. Nadinha (ou quase nada) aqui me diz respeito, por aqui tudo é transitório, passageiro… Apenas espero a hora do alegre (ou do triste?) regresso.

Aos 30, por puro esnobismo, comprei gaiola na última linha do oceano. Cuidadosamente de costas pro mar, pra que toda manhã pudesse desdenhar meu asco de pequeno-burguês físico mas jamais mental. De lá pra cá, andejo, volto em linha reta rumo aos Inhamuns.

Aos 40, já em regresso, atravessei a fronteira imaginária da 13 de Maio, linha simbólica de todas as Fortalezas. Em sentido contrário aos tolos, tontos suburbanos mentais. Meu voo é de avoante ferida, com tiro de chumbo nas croas do rio Acaraú, nas quebradas do Riacho do Gado, por trás das Barras da Oiticica e Convento, de lado da Papaconha de todos os loucos. Pois em cada quarto de qualquer família pulula um doidinho de testa quadrada, encarnado de sangue da abelha capuchu... Um conguê desvairado lendo velhos almanaques, decifrando farrapos de batistérios dos tempos das sesmarias.

Leia também | Confira mais crônicas de Flávio Paiva, exclusivas para leitores do Vida&Arte

Enquanto o Diabo, rosianamente, redemoinha no terreiro. Gracianamente seco, corre meu ralo sangue pelas veredas pedreguentas do Carão. Do outro braço, o direito, o sangue das tristes Oliveiras, dos tontos bons da Curimatã, do Jumentão da Maravilha. Desvia a fantasmagórica Cruz do Zé Guilherme, vem escorrendo pelas terras sombreadas das Aroeiras, resvala pelo Bom Tempo e faz o pelo-sinal na Cruz da Maria das Dores, até pingar em gotas esparsas no Ato da Malhada Real, bem aos pés de Santo Anastácio.

***

Mas apenas quando este regresso às origens se estende pelas estradas do Canindé, as palavras vão escasseando, até quase sumirem da voz. Água evaporando na língua morna de tantos nós. De marejado apenas os olhos, único órgão úmido do sertanejo que volta.

Aí relembro que sou filho, pelos dois lados, da primeira geração que saiu do campo, que desbravou a cidadezinha no pé da Serra das Matas. Não sou filho de matuto urbano, mas de matuto dos matos mesmo, de pés rachados na urina do lajedo quente. Meu pássaro é o Camiranga de beira de caminho, comedor de Cassaco e Tejubina de grota. Meu ouvido é de rabeca triste cantada por cego em final de feira... de cordéis dependurados, feito carne ao sol, em barbante ensebado. Minha casinha é branca, de parede grossa, quase na sombra de uma Jurema imaginária, bem ali no Alto das Pedrinhas.

Mesmo longe de nosso chão, formamos confrarias de quase surdo-mudos. Apenas olhamos para o nascente a perscrutar chuvas. E quando ela vier, pois é certo que vem, virá sempre, um dia... Já nos encontrará de mãos trêmulas e mala pronta.

Essa notícia foi relevante pra você?
Logo O POVO Mais