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Escreveu livros de literatura fantástica e de contos, como

Louro e sua cruz

Tipo Crônica

"Embora exista suficiente espaço numa lápide tumular para conter, encadernado em musgo, o resumo da vida de um homem, os pormenores são sempre bem-vindos" (Vladimir Nabokov, "Riso no Escuro")

"Olha a banana/Olha o bananeiro" - Juracy Melo Nunes já nasceu sob o signo da danação, desde criança foi audaz, adolescente ainda enfrentou a família por um ponto de comércio onde passou a vender bananas, logo outras frutas, sucos e o que se precisasse: era o sinal de que carregaria sua cruz sozinho na vida (seguiu à margem do clã e, dos irmãos, dizia gostar muito do Wilson)!

"Em vez de padre, um pecador" - Reza a lenda que ele quis ser padre e até foi para o Convento de Baturité atraído pela Cruz, ainda a de Cristo... Mas um sarampo o salvou desse calvário: Juracy jurava, às vezes entre gargalhadas, que deixou de lutar a favor do bem para disseminar o pecado. Até juntar dinheiro para comprar um terreno e construir sua primeira casa de festas, a famosa Cabana do Louro. Com sua cabeleira fogoió, uma surrada e espalhafatosa calça boca-de-sino, saía em seu fusca campeando fregueses.

"A cruz do Louro" - Por si já era uma atração, passou a ser mais quando, para construir sua cabana, resolveu derrubar um dos quatro cruzeiros que a paróquia havia colocado nas principais entradas da cidade, porém ele explicava que deslocar a cruz (pois a fincou com base de cimento noutro local, mais adiante na rua) era uma forma de não desrespeitar o símbolo de Cristo com festas mundanas. Na madrugada da profanação um fiel enredeiro foi contar ao padre Bonfim, que acudiu já com a polícia a tiracolo e levaram o espalhafatoso pecador para a cadeia. Quando contava a história (com sua fala atropelada) dizia entre gargalhadas que as cruzes, que seriam para não deixar entrar o demônio, na verdade o tinham deixado preso dentro da cidade. Do episódio ficou com a alcunha e a fama, mas também com a praga de que seus negócios nunca prosperariam.

"Louro da Cruz/A alegria de Crateús" - da cabana em diante muitos foram os pontos de divertimento que inaugurou, também várias seriam as atrações que passariam pela Princesinha do Oeste: dentre muitos, Biafra, Gilliard, Marcio Greyck, Jessé, Gretchen e até Sidney Magal (certa vez Antônio Marcos chegou à cidade, tomou uísque o dia inteiro, jogou pelada com os meninos na frente da Matriz, mais tarde não se aguentava de bêbado no palco)... Trouxe 32 vezes os Trepidant's - gostava de contar a história: durante uma das noites mais concorridas da famosa banda recifense, ele, estando na portaria, foi empurrado pra fora e teve que pular o muro para voltar, tão lotada estava sua casa de shows. Mas sua maior frustração foi nunca ter conseguido trazer seu preferido: Roberto Carlos (embora jurasse ter assinado contrato com o rei, que depois declinou por conta da vinda do Papa João Paulo II ao Brasil). Daria um filme, documentário ou livro todas as presepadas em que se meteu na vida, da expulsão de casa ao trágico assassinato do irmão, de um casamento desfeito à prisão junto com a banda do cantor Biafra, do parquinho aquático "Bebê do Louro" a sua internação forçada no hospital Mira y López (único assunto que o fazia chorar feito criança ao recordar).

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Ultimamente ainda circulava em seu Trenzinho da Alegria, vestido de palhaço, realizando a fantasia da criançada pelas ruas da cidade: o mesmo perfil magro, uma surrada peruca colorida, o apito estridente alternando com antigos bordões de circo: mal sabiam seus contemporâneos que por dentro daquela alma de luz e alegria se escondiam rachaduras enormes, fendas profundas e uma dor que só a custo eram sufocadas pelo riso dos outros.

E num desses minúsculos descuidos de Deus, o velho Louro de tantas festas, vesperais e alegrias acabou dependurado em sua própria cruz.

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