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Escreveu livros de literatura fantástica e de contos, como

Alto das Pedrinhas

Tipo Crônica

Nesses anos de pandemia, ando pensamos mais em minha vida, que – pobre de novidades que não sejam as ruins de sempre – me obriga a visitar mais o passado e viver épocas e pessoas de antes; mesmo os sonhos têm se concentrado em tempos remotos – volta e meia minha terrivelmente feliz infância me invade a madrugada, vezes acordo para ir ao banheiro e logo retorno para continuar o delicioso devaneio ainda fresquinho: meu falecido pai me visitou algumas vezes, até meus avós aparecem em seu casarão já demolido no centro da cidade, primos e amigos num disputado jogo de futebol. Um passeio de bicicleta, durante o inverno de não sei quando: uma estrada enlameada e cercada de matos, tento em vão relembrar quem me acompanha... se ainda vivo ou, talvez, morto.

Mas em quase todo sonho, dormindo ou acordado, estou de passagem pelo meu Bairro das Pedrinhas (querido Alto das Pedrinhas ou apenas carinhosamente Pedrinhas, hoje tão aplainado que mal se percebe a suave elevação), desde a antiga Maternidade Pastora Vale (seu portal de entrada, quando ainda funcionava ou nos longos períodos de abandono), passando pela grota ladeada de muçambês, até seu final na cancela que dava acesso à estrada do Bom Tempo, atravessando antes, em cruz, a nossa única ruazinha sem nome.

Os quintais e terreiros são novamente cruzados em dias e noites de brincadeiras, quando voltamos sempre sujos e exaustos pra casa antes da temida chegada de meu pai (homem severo em suas preocupações de disciplina e estudo); dia desses, me alumiou quase de manhã uma caçada de vagalumes com o primo Geroldo numa noitinha no Riacho do Gado.

De todos os fragmentos de vida registrados nessa estranha caixa-preta do inconsciente, pouquíssimos consigo registrar por escrito (a maioria se perde de volta no imenso abismo do cérebro), como nesta croniquinha sobre a velha maternidade abandonada, onde sempre íamos assistir ao teatro de bonecos (que chamávamos de “Casemiro Coco”).

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“CASEMIRO COCO

Na virada dos 60 pros 70, menino lá em Tamboril só jogava bola. Minto: reinava de bola, bila, carimba, trisca, triângulo, esconde-esconde, arraia e mil brincadeirinhas mais; TV só duas e não dava pra traquina pobre, só na metade dos 70 fomos assistir Jerônimo, Zorro, Batman, Rex nos ladrilhos frios do Coronel Zé Jorge. De quando em vez, já cansado de fazer macaquinhos em dedos finos e dar leques e cascudos nas cabecinhas comidas de piolho e sol, o senhor de todas as terras da região pedia à Preta Zefa uma lata d’água, engolia a metade, gargarejava a outra e cuspia um jato longo na plateia, que nem piscava...

Mas bem antes das benditas “sessões da tarde” nos tijolos frescos do Coronel Zé Mundo, esperávamos na boquinha da noite o teco-teleco-teco dos Casemiros Cocos na sala do Seu Genaro. Empanada de improviso com um lençol, os bonecos cabeçudos feitos com os paus de mulungu disputando insultos e patifarias antes de, invariavelmente, trocarem cabeçadas em meio a gritos e gargalhadas.

De feitio austero, como tudo no sertão, o mamulengo mal era vestido, uma chita qualquer de camisa não mais usada, um batom de urucum no lábio da Sinhá.

As palavras poucas, um grunhido que outro antes do desfecho esperado.

— Tome tento, seu caaabra!
— Teco! Teco! Telecoteco!

Ainda hoje, assegura o camarada Lica, se escuta o bate-cabeças dos Casemiros Cocos, em noites de vento, na velha casa abandonada na entrada do Alto das Pedrinhas”.

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