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Escreveu livros de literatura fantástica e de contos, como

Afogado no abismo

Tipo Crônica

Vez em quando me recordo de pessoas tão conhecidas em vida, tão cheias de energia, vaidade, fama, sempre mergulhadas em polêmicas, então me vem inevitavelmente junto o terrível (e belo) primeiro parágrafo da autobiografia de Nabokov, "Fala Memória": "O berço balança sobre um abismo, e o senso comum nos diz que nossa existência não é mais que uma breve fenda de luz entre duas eternidades de escuridão. Embora as duas sejam gêmeas idênticas, o ser humano, como regra, vê o abismo pré-natal com mais calma do que aquele para o qual se dirige (a cerca de quatro mil e quinhentas batidas de coração por hora)".

Neste maio me veio à lembrança os exatos 13 anos da morte do poeta José Alcides Pinto, da comoção dos amigos (esse tempo cruel de tantas tragédias nos têm deixado mais comovidos), do choque de sua ausência na cena cultural da cidade, no vácuo do dia a dia de sua espalhafatosa convivência com familiares e amigos... porém me vem principalmente o espanto de seu terrível esquecimento, como o de muitas outras importantes e queridas figuras... E como não recordar um de seus versos mais queridos: "Eu sou eu, íntegro e inviolável dentro de mim mesmo. (...) O que está no limiar e afogado no abismo.".

Ele se foi num tempo em que escrever obituário de amigos era coisa rara, feito este que, mui dolorosamente, publiquei no dia seguinte ao seu passamento.

"Quando morre um poeta o mundo fica lastimavelmente mais pobre. Terrivelmente mais triste. Inevitavelmente mais feio.

Às 11h15min de um sábado, dia 31 de maio de 2008, um imenso dragão, disfarçado de motocicleta, atacou impiedosamente o velho poeta, de 85 anos, José Alcides Pinto, em plena rua General Sampaio, bem em frente ao palacete conhecido como Vila do Barão, de ladinho da praça da Bandeira, nos arredores da Faculdade de Direito do Ceará.

O rapaz da banca de revista próxima disse que ele havia passado cedo com alguns envelopes na mão, "dessa vez não vinha com a moça loura", completou; no envelope iam os dois livros recém-publicados (ainda nem lançados) que despacharia para alguns amigos do Rio e São Paulo. Voltava devagarinho (talvez ainda não recuperado do cobreiro que o maltratara meses atrás), esperou debaixo de uma árvore o trânsito acalmar, apressou o passo e... Parou no meio da pista ainda molhada pela garoa de fins de maio, quando finalmente avistou o pássaro enorme em voo rasante, mas ainda deu pra notar o vermelho dos olhos da fera, as teias de aranhas das asas e o barro seco das garras, que era com certeza lá das coroas do rio Acaraú.

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O poeta saiu quebrado numa ambulância, o motoqueiro foi manquitolando atrás; a moto esquecida na sarjeta. Quarenta minutos depois, sua filha passa tranquilamente na mesma calçada; o rapaz da banca grita para avisar do acidente, ela apressa o passo fugindo do enxerimento. Quem deve ter lhe contado a triste notícia?

No dia 2 de junho a alma, também magérrima, do nosso saudoso poeta maldito foi, na frente, esperar pelo corpo que já-já iria em cortejo rumo a São Francisco do Estreito, Santana do Acaraú, Fazenda Terras do Dragão, comboiado por Sérgio Braga, Lustosa da Costa, Audifax, José Teles, Carlos Augusto Viana e outros amigos do peito. Deu tempo ainda de pôr os derradeiros números em sua lápide, que havia sido meticulosamente preparada por ele anos antes. Não havia tido coragem de adivinhar o último algarismo. Reencontrava enfim seu pai, sua terra, sua paz..."

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