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Escreveu livros de literatura fantástica e de contos, como

Literatices e outros desamores

Tipo Crônica

Gosto desse ar de endeusamento das coisas d'arte, das obras bem mais que dos artistas; adoro quando jubilam livros, quadros, músicas... Sejam elas quais sejam, a quem importa se cordéis ou herméticos poemetos? Venero essa sacralização de métodos, rituais, manias dos artífices... Não que sejam mais importantes que as criações em si, não! Claro que não!

Meu amigo Nirton Venâncio me lembra numa ótima crônica que nesta semana, dia 16 de junho, se comemora uma data muito especial na literatura, aquela das desventuras de um personagem famoso: "Leopold Bloom é o Ulisses moderno, herói e covarde, prudente e impetuoso.//No livro de Joyce, Bloom faz seus relatos no dia 16 de junho. Por conta disso é comemorado hoje na Irlanda o Bloomsday. É o único feriado do mundo que é dedicado a um livro. Amantes da literatura promovem diversos eventos em Dublin, muitos caracterizados com as roupas do personagem, em desfile pelas ruas, encontros nas livrarias e clubes de leituras.//Essa curiosa celebração a um personagem da literatura acontece desde os anos 50, embora alguns estudiosos afirmem que iniciou após a morte de Joyce, em 1941, ou até bem antes, logo depois da publicação do livro".

Um amigo paranaense, também fã de carteirinha do contista Dalton Trevisan, vivia imaginando marcos nas calçadas da cidade tão esculachada e amada pelo Vampiro de Curitiba: chegava até a marcar com giz os pontos iniciados em sua misteriosa residência na Rua Ubaldino do Amaral, descendo pela Rua Amintas de Barros, passando pelas livrarias do Chain e a do Eleutério (para deixar seus livretes), desviando pra tomar uma coalhada com mel na Galeria Schaffer, deslizando discretamente pela Rua XV, olhando de soslaio para a Boca Maldita, fugindo dos olhares conhecidos mas indiscretos, até a escondida sala do amigo editor da Gazeta de Curitiba, de onde ele só saía pela boquinha da noite, quando fazia a volta para ver as corruíras darem seus penúltimos trinados vespertinos na copa das árvores da Praça Ozorio e ainda tentar alcançar os últimos raios de sol nos ipês amarelos da Praça Tiradentes, depois deslizar rente pelas paredes da velha Catedral antes de se embrenhar entre as árvores do Passeio Público e os já recolhidos bichos do zoológico... Sabe o velho Vampiro de Curitiba que dali em diante, entre a bruma e gemidos, a fauna que lhe interessa é quem vai habitar aquelas tenebrosas alamedas.

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Mas eu sempre lhe retrucava que seria bem melhor marcar as veredas deixadas pelos seus personagens, tantas Marias e tontos Joãos circulando em quantos pontos reais e imaginários da fria cidade; também lhe contava que o turismólogo cearense, Gerson Linhares, dentre outros, idealizou uns "Caminhos de Iracema", a virgem índia dos lábios de mel, desde os banhos na Bica do Ipu, passando pela flor d'água da Lagoa de Messejana, Casa (e Praça) de José de Alencar até chegar aos verdes mares do Mucuripe, na capital cearense.

Essas festas e literatices pouco acrescentam ao desenvolvimento das obras de artes, mas muito faz pelas suas promoções, propagandas, mantendo viva uma rala chama de interesse cada vez mais rarefeita por ruídos de outras "mídias" e canais de entretenimento. Devido a isso nunca fui contra as chatíssimas Bienais e Feiras de livros, às seiscentas mil associações e academias de faz de conta literário, nem aos Clubes de Leituras de padarias e cantos de livrarias, muito menos às mil e duas oficinas literárias que são ministradas Brasil afora, mesmo que muitas delas sejam "facilitadas" por escritores que mal sabem alinhavar duas frases.

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