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Escreveu livros de literatura fantástica e de contos, como

Roldanas e rotinas

Tipo Crônica

Fui um viajante contumaz, vivia de mochila pronta num canto da sala: mal regressava e já iniciava o planejamento da próxima "esticada". Verdade que não era muito criativo em meus itinerários turísticos: se gostava de um lugar volvia inúmeras vezes, realizando quase as mesmas tarefas de passeios anteriores; enfim, transferia minha rotina daqui para o tal destino - pois no fundo sou um sujeito afeito a repetições; e (fui, aos pouco, constatando isso) as viagens eram apenas inconscientes tentativas de lutar contra o meu marasmo interior.

Mudava também bastante de residência, chegava às raias do impraticável, irritando os que dividiam "teto" comigo: "Ou você para de se mudar ou da próxima vai sozinho". Para não perder companheira, filhos, finquei enfim raízes; teria de encontrar outras maneiras de compensar minha "imobilidade mental"; então passei a transferir as coisas de lugar: geladeira, mesa, cadeiras não paravam quietas, livros sambavam nas estantes... Mas logo comecei a ter problemas para encontrar os objetos mais úteis, já os menos utilizados continuam perdidos pela casa - de vez em quando me deparo com algo que imaginava nem mais possuir.

A companheira se espanta com minha "capacidade" de fazer sempre as mesmíssimas coisas, de vestir sempre as mesmas roupas gastas, de ir sempre aos mesmos lugares, de sentar-se sempre à mesma mesa de restaurante, de ler sempre os mesmos autores, de conversar sempre com os mesmos amigos, de... Porém (e apesar dos inúmeros sinais) demorei a descobrir que sou mesmo é um sujeito preso às roldanas da rotina, e (já bem consciente disso) o jeito foi tentar conviver com o triste "defeito", mudando aqui e ali quando possível; "penteando" vigilante meus passos trôpegos pelas veredas da vida.

Aos poucos estou deixando de lado aqueles costumeiros passeios de sábados pelas livrarias e sebos: mas os faço às quintas. Quase à força tento transferir a rotina, fingindo que estou mudando de verdade. A mesa do restaurante foi trocada por outra quase ao lado, mas já penso em mudar até mesmo de restaurante - por outro de rua próxima, claro. Meus Onetti, Melville, Salinger, Céline, Raduan, Moreira Campos, Graciliano vão sendo dolorosamente substituídos na estante por novidades; só não deixo de, vez por outra, dar uma limpadinha saudosa nos volumes escondidos na parte de cima da prateleira abarrotada de livros recentes.

Tenho vários amigos novidadeiros, que viajam sempre para países distantes, exóticos, em busca de costumes novos para animar os seus mofados passos; até os admiro e tento aprender com eles - aquele velho papo dos opostos e tal; também converso bastante com meus colegas escritores que vivem nas livrarias de shopping atrás das "últimas novidades" surgidas nas derradeiras bienais e feira de livros e vaidades. Mas o pior de tudo (ou o melhor, sei lá) é que um infeliz construtor de rotinas feito eu não consegue passar muito tempo longe das suas manias, mesmo que na prática viva fugindo delas; e, nem que seja disfarçado, vou de vez enquanto ao tal restaurante de sempre procurar aquela mesmíssima mesa, ou entre os cochilos da tarde troco o "gênio recente" por aquela alegre (e triste) passagem do Quixote, aquele encontro na charrete com Emma Bovary, aquela deliciosa descrição do passeio de Mrs. Dalloway... Às infinitas pérolas de Dom Casmurro.

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