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Escreveu livros de literatura fantástica e de contos, como

PedroSalgueiro • Crônica

Nós de novembros

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Todos os anos louvo meu novembro querido, mês de meu nascimento em plena ditadura de 1964; louvo, mesmo neste ano tão difícil em que nosso triste país se encontra imerso em tanta mediocridade que nem imaginávamos mais existir, mas que se encontrava escondidinha bem ali abaixo do tapete de nossa repartição, de nossa família, de nossa roda de amigos; mediocridades que tanto tempo caladas hoje urram em poses de arminhas e asas de anjos que em vão exalta velhos valores de deus, de pátria e família, tão próximos e carregados de ódios.

Neste meu novembro resolvemos visitar - antes do retorno costumeiro para a visita dos mortos do cemitério São Miguel - o assentamento do Saco do Belém de Sem-Terras que desbravaram o sertão de Santa Quitéria ainda na década de 1980, desejo antigo que aproveitamos para energizar nossa alma para esta luta dura de resistência com a bravura desses heróis anônimos, desses Zé e Chico Lourenço, desses Antônios Conselheiros que desbravaram (e desbravam, pois suas lutas permanecem duríssimas) sertões por cima de paus e, principalmente, pedras.

Saímos com nossas baterias carregadas, esperanças renovadíssimas, pelo exemplo de vida desses homens e mulheres de peles crestadas mas de olhos firmes, que nos impões admiração e respeito.

Novembro despedaçado

Todo novembro, como que atraído por uma força atávica, volto às minhas origens; feito um elefante velho que treina, quando pressente em si o cheiro da morte, sua última viagem de volta ao seco e distante torrão natal. Novembro de parar a vida e esperar por algum sinal do tempo. Novembro de comemorar esse marco ilusório da passagem dos anos; novembro de juntar os cacos de um ano difícil de atravessar. Novembro que deveria ser de minhas esperanças promete ser de nossas desesperanças. Novembro de acompanhar o titubear dos filhos na vida. Novembro de recordar os velhíssimos amores, desses que temos medo até de lembrar para que não sejam maculados pelo frio presente. Novembro antigo, mas ao mesmo tempo novinho em fraudas (dessas de algodão, presa por um broche que ninguém mais usa). Novembro de minhas antiquadas saudades: dos jogos de bola e bila, trisca e fuzila, triângulo e arraia (quantas vezes ainda sonho um sonho feliz desses de acordar chorando e rindo ao mesmo tempo; sorriso e soluço perfurando a madrugada já se avermelhando). Novembro mesmo desses de ter esperanças até com a brisa balançando a rosa dos ventos deixada pelo vizinho que faleceu faz anos e que, magicamente, puxa um fiapinho da teia de aranha da memória que traz baixinho os longínquos balidos de chocalhos das criações no curral atrás da casa. Novembro das últimas chuvas do caju, daquelas que em vão procuramos na cozinha uma lata amassada para pôr debaixo da biqueira só pra tentar reconstituir os sons de uma velhíssima lembrança já quase apagada. Novembro que restam poucos, talvez quase nada. Novembros mirrados que talvez por isso devam ser agarrados com unhas e dentes, para que não se esvaiam assim facilmente como todos os outros. Novembro de muitos laços a serem desatados com sopros e cantos de olhos e unhas. Novembro de muitos nós.

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