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Escreveu livros de literatura fantástica e de contos, como

pedro-salgueiro • Cronica

Rubem Fonseca

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Rubem Fonseca, assim como João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Dalton Trevisan e Lygia Fagundes Telles (sem esquecer outros grandes contistas da segunda metade do século XX aos dias atuais, pois citaria mais uns dez "monstros" sem esforço de memória), fincou morada - há mais de cinco décadas - no andar de cima da Literatura Brasileira.

Já em 1963 causou espanto com Os Prisioneiros, chamando a atenção da crítica, dos colegas de ofício e, principalmente, dos leitores, porém foi com a censura de seu Feliz Ano Novo, em 15 de dezembro de 1976, pela Ditadura Militar, que se tornou um nome amplamente conhecido, quando o cearense Armando Falcão, ministro da justiça de Ernesto Geisel, o proibiu (depois de 30.000 exemplares comercializados e várias semanas na lista de mais vendidos da Veja) com o despacho que dizia: "Nos termos do parágrafo 80 do artigo 153 da Constituição Federal e artigo 3º do Decreto-Lei nº 1.077, de 26 de janeiro de 1970, proíbo a publicação e circulação, em todo o território nacional, do livro intitulado Feliz Ano Novo, de autoria de Rubem Fonseca, publicado pela Editora Arte Nova S.A., Rio de Janeiro, bem como determino a apreensão de todos os seus exemplares expostos à venda, por exteriorizarem matéria contrária à moral e aos bons costumes. Comunique-se ao DPF".

Do livro mesmo, Falcão, em entrevista aO Estado de S. Paulo em 07.01.1977, disse que "Li pouquíssima coisa, talvez uns seis palavrões, e isto bastou", na mesma reportagem o senador Dinarte Mariz afirma que "Suspender Feliz Ano Novo foi pouco. Quem escreveu aquilo devia estar na cadeia e quem lhe deu guarida também. Não consegui ler nem uma página. Bastou meia dúzia de palavras. É uma coisa tão baixa que o público nem devia tomar conhecimento".

Mas mesmo depois das famigeradas censura e ditadura passarem ("Vai passar nessa avenida o samba popular", nos lembrou - e lembra ainda! - Chico Buarque), não faltaram censores movidos (como aqueles outros) pela burrice e/ou incultura a tentar censurar seus livros: ainda dia desses um reles secretário de cultura semianalfabeto de Rondônia tentou proibir nada mais nada menos que 43 livros, de clássicos universais aos contemporâneos nacionais, de Kafka a Machado de Assis, e - pasmem! - destas 43 obras nada menos que 19 eram de Rubem Fonseca.

Mas muitas coisas cabem na vida de um homem, e - por ocasião de sua morte - em 18 de Abril de 2020, Marcelo Rubens Paiva (seu fã confesso, admirador de longas datas e que até homenageou o autor de Feliz Ano Novo com seu, também hoje clássico, Feliz Ano Velho) escreveu, no "Estadão", o artigo "Rubem Fonseca e o Golpe de 64", que revoltou alguns leitores e amigos de Fonseca, por lembrar (já que o próprio Rubem já teria confessado em artigo) a participação dele no Instituto IPÊS, que foi financiado com dinheiro de empresários brasileiros e americanos para a derrubada de João Goulart e a consequente implantação da Ditadura Militar de 1964 (mas isso merece outra crônica, para isso aguardo a carta de Fonseca esclarecendo sua participação nesse episódio de nossa história recente, que a querida Ana Miranda, grande amiga dele, me enviará).

Rubem Fonseca chocou e polemizou (com muito mais admiradores que detratores) por mais de cinco décadas e seguirá nos assustando e deleitando com sua literatura forte e talentosa. Morreu o homem no alto dos seus quase 95 anos (que faria mês que vem), mas - sem fugir do lugar comum - perdurará em sua obra singular.

E só resta esperar que nos tenha deixado mais alguns contos desafiadores no fundo da gaveta (na verdade, em seus arquivos de computador, pois foi - entre nós, pioneiro que sempre foi - um dos primeiros a utilizar a tecnologia) de sua velha mesa de trabalho no sempre querido bairro do Leblon.

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