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Escreveu livros de literatura fantástica e de contos, como

PedroSalgueiro • Cronica

Colcha de retalhos

Por

"Me lembro como se fosse hoje! É sempre um excelente começo para contar mentira".

Mas falando sério, a melhor coisa que aconteceu nessa pandemia foi você (sim, eu e você, nossotros todos!) ver uma coisa nuuuuunca antes vista na curta história desse Brasilzim de açúcar: empresários, às pencas, preocupados com a fome e a miséria dos pobres, com o desemprego... Deus meu!, se essa (não digo incautamente BENDITA para não acharem que o raciocínio é de Luís Inácio) terrível pandemia durasse mais uns dois anos teríamos um fenômeno inédito na história política, econômica, filosófica etc., da humanidade: empresários socialistas, quiçá até comunistas...

Empresários, de dentro de seus importados, tirando fotos de meninos nos sinais de trânsito (como se eles jamais antes estivessem circulado por ali) para comover a população... Onde e quando, "nunca antes na história deste País!" (plagiando de novo o querido quatro dedos), já se viu tanto humanismo!?

"Amar sempre existe uma certa ciência por causa do medo/(Nosso sexto sentido)./Mentir é mais fácil./É como cantar: se aprende de ouvido".

Mas que batalha mais ridícula essa dos CNPJs contra os CPFs, pasmem! Eles, que sempre antes andaram tão juntos (andaram?), porém agora, com a ajuda do deslavado despresidente, resolveram se digladiar em público; onde já se viu, figuras tão discretas e unidas, companheiras até, virem em público lavar roupas sujas?

- Eu sou mais importante que você!, defeca o CNPJ, dedo em riste.

- Nada disso, sem mim você nem existe!, defende-se o CPF, apaziguando, com medo de perder o emprego.

De certo é que vão ter que esquecer esse triste período (esses tristes episódios) e voltarem a andar de mãos juntas, passadas apressadas na mesma direção (sim, pois não!, diria Beckett).

"- Eu nunca marco derrota do meu time na loteria. Me sinto um traidor./ - E a Shyrley com dois picilones?/ - Tudo joia. Minha mulher nem desconfia".

Muitas são as esperanças de que sairemos melhores depois dessa triste pandemia, até alguns pessimistas de plantão abrem suas guardas para acreditar (duas pulgas atrás de cada orelha); mas a fragilidade que esse isolamento físico nos deixa mexe com fibras mentais que até Deus duvida; amor e ódio às vezes andam tão juntos, né mesmo!?

"Todo escândalo de adultério deve comportar uma trégua pro cafezinho."

Mas voltando a falar sério, quantos anos (ou séculos), sem essa terrível (volto a dizer "terrível!"... Cuidado Lula, uma palavra na sua boca tem o peso de uma tonelada, não esqueça que eles jamais te perdoarão tuas pequenas - mas pra nós tão grandes! - ousadias) pandemia, levaríamos para perceber que o povo não pode ser jogado, sem lenço nem documento, no meio desse famigerado "Estado Mínimo".

Enquanto isso...

...no Café e Bar Leixões, o PM de folga agradece: - Não obrigado. Eu só bebo em serviço./...alto funcionário da Polícia Federal de Brasília lembra a seus comandados: - O piso é que é à prova de fogo. O preso, não./...em São Paulo, o empresário Papa "Doc" Junior garantiu que não quer "se sentar-se" ao lado de comunistas. Penteado comentou: - Parece que ele quer continuar de quatro mesmo./...na Baixada Fluminense, o delegado adverte as crianças que expiam os quinze presuntos: - Vamos circular. Não há nada pra ver".

P.S.: Essa pequena crônica, em retalhos, foi confeccionada com enxertos de duas pérolas do grande Aldir Blanc: "Colcha de retalhos" e "Enquanto isso...", da coletânea "Rua dos Artistas e Transversais" (RJ: Agir, 2006).

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