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Plínio Bortolotti integra do Conselho Editorial do O POVO e participa de sua equipe de editorialistas. Mantém esta coluna, é comentarista e debatedor na rádio O POVO/CBN. Também coordenada curso Novos Talentos, de treinamento em Jornalismo. Foi ombudsman do jornal por três mandatos (2005/2007). Pós-graduado (especialização) em Teoria da Comunicação e da Imagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

O 7 de Setembro e o refúgio dos canalhas

Se os militares continuarem dando sustentação ao governo, só lhes restará o patriotismo a preço fixo, acostando-se cada vez mais em um presidente liberticida, cujo objetivo principal é transformar o Brasil em uma ditadura, com "Bolsonaro no poder", como clama a sua horda de fanáticos.

“O patriotismo é o último refúgio dos canalhas.” A frase, de autoria do escritor inglês Samuel Johnson, apesar de haver se tornado lugar comum devido à sua repetição, é perfeita para descrever o ato golpista marcado para esta terça-feira, 7 de Setembro, quando se comemora os 199 anos da independência do Brasil em relação a Portugal.

Porém, diferentemente de algumas interpretações, Johson não considerava covardes os verdadeiros patriotas, aqueles que guardam um generoso reconhecimento à terra onde nasceram e aprenderam a amar.

O escritor volta-se àqueles que dizem ufanar-se de seu país apenas como escudo para defender seus próprios interesses e, quando pegos em flagrante, apelam para um falso patriotismo, com o objetivo de esconder suas verdadeiras intenções, que tanto podem ser pecuniárias quanto políticas.

Você já deve ter ouvido muito por aí “meu partido é o Brasil” de sujeitos cujo trabalho principal é favorecer unicamente o seu grupelho político. Ou, ainda quando o “Brasil acima de todos” é apenas um slogan sob o qual trabalha-se com afinco para destruir a democracia e proteger parentes, que correm da Justiça, do zero um ao zero quatro, noves fora os agregados.

Quem também tem muito a perder no quesito “interesses particulares” são os cerca de sete mil militares que colonizam o governo, do varejo aos cargos mais elevados.

Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, “Militares que comandam estatais acumulam salários e ganham entre R$ 43 mil e R$ 260 mil” (edição de 4/9/2021). Das 46 estatais controladas pela União, 16 (34,8%) são presididas por oficiais das três forças (Marinha, Exército e Aeronáutica), valores que excedem o teto do funcionalismo público, de R$ 39,3 mil.

O desconto para reduzir o salário ao teto legal deixou de ser obrigatório EXCLUSIVAMENTE para os fardados, depois da edição de uma portaria do Ministério da Economia, que permitiu acumular a remuneração militar com o salário na empresa pública na qual prestam serviço.

Esse privilégio beneficiou também o presidente, o capitão Jair Bolsonaro; o vice, general Hamilton Mourão e também os ministros militares.

Um exemplo dessa extravagância, como demonstrou a Folha, é o presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna. Como general do Exército, ele recebe R$ 32,2 mil e outros R$ 228,2 mil da estatal (ganhos fixos e variáveis referentes a 2020), embolsando o modesto salário de R$ 260 mil por mês.

Nos correios, em processo de privatização, os ganhos do general de Divisão Floriano Peixoto Vieira Neto somam R$ 77,3 mil, uma parte vem do Exército, R$ 30,6 mil, a outra da empresa estatal, R$ 46,7 mil.

Alguém poderia dizer, alto lá, é um salário adequado para quem preside empresas do porte dos Correios e da Petrobras. Certo respondo, eu, porém pergunto: e o patriotismo tão decantado?

O que acontece é que hoje os oficiais se lambuzam nas boquinhas que antes condenavam, formando uma espécie de “centrão militar”. Para isso, abandonaram — pelo menos uma parte deles — a sua missão constitucional para ser o sustentáculo de um governo que hoje infelicita a nação, e cujo presidente tem como ocupação primordial proteger a própria família, às voltas com o Ministério Público, que acusa corrupção da grossa, e com a Justiça que lhes põe a cobro.

Além disso, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia revelou a política do governo de insistir no “tratamento precoce” como medicamento ineficazes e na "contaminação de rebanho” como forma de debelar a transmissão do novo coronavírus. Essa política criminosa foi responsável por uma parcela importante das mais 580 mil mortes causadas pela Covid 19 no Brasil.

Soma-se à desídia com relação ao vírus uma estrutura de corrupção que, segundo a CPI, instalou-se no Ministério da Saúde para lucrar com a negociação de vacinas (a preços mais alto do que as oferecidas pelos laboratórios e que, possivelmente, nunca seriam entregues), enquanto dezenas de milhares de brasileiros eram dizimados pela doença.

Um governo que perdeu o controle da economia, com o PIB sem dar sinais de melhora; inflação ameaçando voltar, o preço do alimentos subindo, gás de cozinha a preço proibitivo, o País retornando ao tenebroso mapa da fome, gasolina chegando a R$ 7 o litro, uma crise enérgica batendo à portas, e a destruição do meio ambiente.

O que falta para convencer que o governo Bolsonaro fracassou em todas as frentes, menos em uma, que foi a de enfraquecer as instituições da democracia?

Ainda há tempo de os militares recuarem para os quartéis, retirando-se da política, deixando de dar seu aval a esse governo de moral liliputiana.

Fora disso só lhes restará o patriotismo a preço fixo, acostando-se cada vez mais em um presidente liberticida, cujo objetivo principal é transformar o Brasil em uma ditadura, com “Bolsonaro no poder”, como clama a sua horda de fanáticos.

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