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Plínio Bortolotti integra do Conselho Editorial do O POVO e participa de sua equipe de editorialistas. Mantém esta coluna, é comentarista e debatedor na rádio O POVO/CBN. Também coordenada curso Novos Talentos, de treinamento em Jornalismo. Foi ombudsman do jornal por três mandatos (2005/2007). Pós-graduado (especialização) em Teoria da Comunicação e da Imagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Bloqueio dos caminhoneiros: a "retórica" voltou-se contra o fanfarrão

O presidente deve ter-se assustado com a reação, pois gravou um áudio pedindo pedindo aos caminheiros que suspendam o bloqueio. Nos grupos bolsonaristas, muitos classificaram o áudio de "fake", duvidando que o presidente fosse acovardar-se, depois de ter excitado a sua tropa

Bolsonarianos "raiz", e mesmo a turma "liberal" — do sapatênis e roupa de grife —, costumavam justificar os achaques do presidente, seus xingamentos e ameaça às instituições, como "retórica", sem nenhuma consequência, enquanto os profissionais (Paulo Guedes e seus cúmplices) tocavam a economia. Mas esqueciam-se eles (de forma proposital ou não) que, na política — e em todas as atividades humanas —, as palavras têm tanta força quanto a ação;

A "retórica" é tão importante que um dos poderes da República, o Legislativo, também é conhecido como "Parlamento", que vem a ser justamente o ato de falar, trocar palavras, conversar, de modo a se chegar a um consenso ou a uma votação, quando se esgotam os argumentos.

Portanto, a “retórica” de Bolsonaro nunca foi inócua, mas uma violenta forma de fazer política, com o propósito de demolir as instituições da democracia.

O problema é que a conspurcação da linguagem atrai o pior de uma sociedade, e costuma criar mostrengos difíceis de controlar. Tipos como o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), Roberto Jefferson (presidente do PTB) e um tal de “Zé Trovão”, que se apresenta como líder dos caminhoneiros, todos eles às voltas com a Justiça devido a atos incentivados pela “retórica” presidencial.

Mas o pior é que o próprio Bolsonaro tornou-se vítima de seus despautérios verbais. Nos atos de 7 de Setembro — falando para uma plateia que reivindicava a implantação de uma ditadura no País, fechamento do Congresso e do STF — xingou o ministro Alexandre de Moraes e afirmou que não cumpriria mais decisões do Supremo Tribunal Federal.

Como prova de fidelidade, seus aliados caminhoneiros resolveram partir para a ação, bloqueando rodovias em vários estados, exigindo que o presidente atenda reivindicações antidemocráticas, todas elas incentivadas pelo próprio Bolsonaro.

O presidente deve ter-se assustado com a reação, pois gravou um áudio pedindo aos caminheiros que suspendam o bloqueio. Nos grupos bolsonaristas, muitos classificaram o áudio de “fake”, duvidando que Bolsonaro fosse acovardar-se, depois de ter excitado a sua tropa. O ministro Trarcísio Freitas (Infraetrutura) precisou gravar um vídeo para autenticar a veracidade do recuo presidencial.

Em sua coluna no Uol (9/9/2021) o jornalista Leonardo Sakamoto, disse que em grupos bolsonaristas, os aliados do presidente se dividem entre aqueles que continuam a ver o áudio como falso e os que ficaram revoltados com Bolsoanro. Um deles escreveu: “Agora, já que falaram pra caralho, assume a porra da bucha!”

O fato é que Bolsonaro conseguiu mostrar a força da “retórica”, mas as palavras voltaram-se contra o fanfarrão bravateiro, que agora deve estar sem saber o que fazer (se é que soube alguma ocaisão).

 

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