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Plínio Bortolotti integra do Conselho Editorial do O POVO e participa de sua equipe de editorialistas. Mantém esta coluna, é comentarista e debatedor na rádio O POVO/CBN. Também coordenada curso Novos Talentos, de treinamento em Jornalismo. Foi ombudsman do jornal por três mandatos (2005/2007). Pós-graduado (especialização) em Teoria da Comunicação e da Imagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

"Fora Bolsonaro" tem de mirar-se no exemplo das "Diretas Já"

É preciso que a organização dos atos contra Bolsonaro tenha uma liderança mais diluída, com representantes de todos os partidos e organizações de oposição

Uma coisa é inegável: os principais organizadores do ato contra o presidente Jair Bolsonaro neste domingo (12/9/2021) ajudaram a elegê-lo e, até hoje, não fizeram “autocrítica” para penitenciar-se da teratologia que ajudaram a criar. Aliás, o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem pra Rua não apenas contribuíram para eleger o capitão, foram também a banda de música da política bolsonariana.

Quando a coisa começou a desandar, o MBL e o Vem pra Rua pularam fora do barco bolsonarista, alegando que o presidente aliou-se ao Centrão e abandonou a "agenda da campanha", argumento que só convence a trouxas. A verdadeira razão é político-eleitoral, pois sabem que até o próximo ano será difícil tapar os furos da embarcação governista, que está fazendo água.

(Se esses dois movimentos não tinham ideia de que mau militar faria exatamente o que fez, como demonstrava o seu histórico, das duas uma: ou é uma gente de completa incompetência política ou agiram de má-fé para eleger-se na "onda Bolsonaro”, e nenhuma das alternativas os favorece.)

Assim, voltando ao primeiro parágrafo, é compreensível — gostando-se ou não do PT — que o partido não teria como participar de um ato cuja palavra de ordem central era "Nem Bolsonaro, nem Lula", sendo que o ex-presente é o principal líder do PT e o mais destacado político de esquerda no Brasil e um dos principais representante dessa corrente no mundo. Isso é um dado da realidade, gostando-se ou não de Lula.

(Do mesmo modo, é preciso reconhecer que Bolsonaro é hoje um dos mais importantes, se não o principal, representante da extrema direita no mundo.)

Depois, os principais convocadores do ato retiraram a consigna “Nem Bolsonaro nem Lula”, mas o estrago já estava feito. Mesmo assim, o Vem pra Rua manteve as provocações ao PT e Lula durante o ato, mostrando que o recuo fora apenas tentativa de atrair mais público, sem que houvesse a intenção de criar um movimento que abarcasse toda a oposição a Bolsonaro.

Porém, não se pode imputar como “erro” os setores de esquerda que compareceram à manifestação. Somente lembrar que as análises que culpam o PT por "dividir" o movimento são muito rasas — pois equivaleria ao partido aceitar sua equivalência com o bolsonarismo — e prejudicam a formação de um movimento maciço e coeso de enfrentamento a Bolsonaro.

Também é equivocado tripudiar sobre o ato de domingo, regozijando-se por ter atraído pouca gente, o que é fato. O momento não é de se apresentar a "terceira via" nem de se pôr candidaturas individuais por sobre da tarefa principal, que é dar um xeque-mante em Bolaonaro.

O que é preciso, portanto, é que a organização dos atos contra Bolsonaro tenha uma liderança mais diluída, com representantes de todos os partidos e organizações de oposição. Além disso, as palavras de ordem centrais têm de unificar a todos, sem exclusões, como “impeachment já” ou “fora Bolsonaro”.

Há um exemplo bem recente de que esse é o caminho do sucesso para enfrentar ditaduras ou candidatos a ditador: o movimento das "Diretas Já".

É preciso urgentemente retomar esse exemplo.

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