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Plínio Bortolotti integra do Conselho Editorial do O POVO e participa de sua equipe de editorialistas. Mantém esta coluna, é comentarista e debatedor na rádio O POVO/CBN. Também coordenada curso Novos Talentos, de treinamento em Jornalismo. Foi ombudsman do jornal por três mandatos (2005/2007). Pós-graduado (especialização) em Teoria da Comunicação e da Imagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Está errado quem pensa que Bolsonaro vai abrandar o seu discurso na ONU

Pronunciamento será ofensivo e não defensivo. Mas pode ser que ele surpreenda o mundo e fale como um estadista. Mas não aposto uma única ficha nessa possibiliade. E você?

Um dos analistas da Globonews afirmou que Bolsonaro fará, nesta quarta-feira (21/9/2021), um discurso “defensivo” na 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) evento que, por tradição, cabe ao Brasil abrir.

Discordo, pois, tanto pelas características hediondas do presidente, quanto pela demonstração de desrespeito que está dando à entidade — criada logo depois da 2ª Guerra Mundial, com o objetivo de propiciar um ambiente de diálogo entre as nações —, não há nenhum indicativo nesse sentido.

O presidente brasileiro já vai chegar à sede da ONU atropelando o “sistema de honra”, na qual a palavra do líder máximo de um país tem efeito de um atestado de verdade. Assim, quando passar o crachá para entrar no prédio da ONU, já estará contando a primeira mentira: de que está imunizado contra a Covid-19, um pré-requisito para ter acesso ao recinto.

Tendo chegado ontem à Nova York, fez questão de postar uma foto comendo uma pizza na calçada, fazendo de conta que tentara entrar em um restaurante e fora impedido por não estar vacinado. Ora, por que não fez a refeição no próprio hotel ou em algum restaurante que tinha mesas ao ar livre, quando não é preciso apresentar atestado de vacinação?

Na verdade, a foto não foi um imprevisto, foi feita de encomenda para a malta bolsonariana reproduzi-la nas mídias sociais, apresentando o presidente como um “homem comum” que não se submete às regras que atentem contra a sua "liberdade" (de transmitir doenças).

Junto com Bolsonaro na fotografia aparece uma penca de puxa-sacos, civis e fardados, fazendo-lhe vassalagem: Pedro Guimarães (presidente da Caixa Econômica Federal); general Luiz Eduardo Ramos (chefe da Casa Civil), Gilson Machado (ministro do Turismo), Marcelo Queiroga (ministro da Saúde), Almirante Flávio Rocha (secretário especial de Assuntos Estratégicos) e Anderson Torres (ministro da Justiça e Segurança Pública).

O fato é que Bolsonaro é um pária sem mais nenhum respeito da comunidade internacional, sendo motivo de preocupação e chacota. Excluem-se, por óbvio, desse concerto de nações civilizadas, a extrema direita que se apoderou de alguns governos mundo afora. Tavez o presidente use o seu discurso na ONU para apresentar-se como o líder desse “movimento” fascistóide, depois que o ídolo de todos eles, Donald Trump, foi defenestrado do governo americano.

Internamente, a popularidade de Bolsonaro está se liquefazendo. Pesquisas mostram que ele perderia para qualquer candidato no segundo turno nas eleições presidenciais. Mais da metade dos brasileiros não confia em nada do que ele diz, reprovam o seu comportamento na pandemia, e apoiam o seu impeachment.

Portanto, no Brasil ou no exterior, resta a Bolsonaro falar diretamente para a horda que o apoia, independentemente das barbaridades que ele faça ou venha a fazer. Pois assim costumam ser os fanáticos. E a dose da droga — mentiras, xingamentos, criação de inimigos imaginários — tem de ser cada vez maior para manter a turba excitada.

Assim, seu discurso será ofensivo e não defensivo. O máximo que pode acontecer, é ele dar uma no cravo e outra na ferradura.

De qualquer modo, às 10 horas de amanhã (21/9/2021), quando Bolsonaro subir no púlpito da ONU pode ser que ele surpreenda e fale como um estadista. Se isso acontecer, fica aqui minha antecipada autocrítica

Porém, se eu tivesse 100 fichas, não apostaria nenhuma nessa possibilidade. E você?

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