A pandemia do novo coronavírus, que fez aumentar a pobreza para milhões de pessoas, parece ter sido boa para os bilionários. Segundo o “Bilionares Index”, da revista Bloomberg, os super-ricos tiveram aumento de 31% em suas fortunas, o maior percentual desde a criação da lista em 2012.
Index
O índice registra os 500 bilionários do mundo, entre os quais existem cinco brasileiros. O, digamos assim, “top five” do Brasil tem mais dinheiro do que a metade mais pobre da população desta Terra de Santa Cruz.
Os 500
A soma dos recursos dos 500 bilionários é maior do que o patrimônio de 60% da população mundial. Considerando que, em todo o mundo, vivem cerca de oito bilhões de almas, seria preciso reunir a renda de 4,8 bilhões de viventes para equiparar-se à fortuna dos 500 super-ricos.
Pelo menos três desses bilionários já patrocinaram viagens ao espaço.
Richard Branson
O britânico Richard Branson, dono Virgin Galactic, voou em julho, com outros cinco tripulantes. Ele gastou US$ 1 bilhão (cerca R$ 5,5 bilhões) no projeto. Sua empresa já tem 600 pedidos para viagens turísticas em voo suborbital, ao preço de 250 mil dólares (cerca de R$ 1,3 milhão), para passeios de pouco mais de uma hora. Branson é número 469 da lista de bilionários, com fortuna avaliada em 6,11 bilhões de dólares
Jeff Bezos
Pouco depois, Jeff Bezos, dono da Amazon, voou com mais três pessoas, uma delas pagante. Bezos é o segundo da lista, cujo cofre guarda 197 bilhões de dólares.
Elon Musk
Em seguida, Elon Musk, da SpaceX, organizou uma viagem que orbitou o planeta Terra. A nave decolou com quatro tripulantes, Musk preferiu não embarcar. Ele é o primeiro da lista da Bloomberg, com 236 bilhões de dólares.
Controle
Entre outros interesses, esses bilionários disputam quem vai controlar comercialmente o espaço, incluindo as viagens turísticas espaciais.
Benefícios
Alguns podem dizer — e não deixa de conter alguma verdade —, que as pesquisas científicas e o desenvolvimento tecnológico obtidos nesses projetos, resultam em benefício geral, como acontece com outras descobertas que se popularizaram, como a energia elétrica. A agricultura, por sua vez, desenvolveu-se com o aporte de tecnologias, com a mecanização das lavouras, permitindo maior produtividade. As novas tecnologias hoje também têm importante papel nesse aspecto.
Difícil explicação
Mas, convenhamos, é difícil explicar para quem vive em uma situação degradante, por que, enquanto uns poucos vão para o espaço, milhões são condenados a viver em ambientes infernais, acossados pela fome, e onde falta tudo: água tratada, saneamento básico, saúde e trabalho. O desemprego é cada vez mais frequente, um dos problemas agravados pelas novas tecnologias.
Brasil
Ficando somente no Brasil, ou mais especificamente em Fortaleza, percorre a Internet alguns vídeos tenebrosos a escancarar a brutalidade da fome. Em um deles, um amontoado de pessoas disputa restos na caçamba de um caminhão de lixo, na Aldeota, bairro “nobre” da cidade; em outro, homens e homens e mulheres catam restos de comida dispensados por um supermercado, no bairro Cocó, também na área “rica” de Fortaleza.
Imagens assim, desesperadoras e vergonhosas, estão sendo vistas com cada vez mais frequência em todo o Brasil, e elas se repetem em praticamente todos os países do mundo.
Política
Para essas pessoas será pedir demais que aguardem, para um futuro incerto, que a tecnologia, também com seus limites, resolva problemas de tamanha magnitude, mesmo porque eles são políticos e não da esfera da técnica.
Sistema perverso
A forma como a riqueza produzida no mundo é apropriada revela um sistema extremamente perverso, que favorece uma minoria em detrimento da imensa maioria. E não será a “revolução espacial”, feita por empresários, que mudará a situação.
Modelo insustentável
É óbvio que esse modelo esgotou-se, e há urgência em superá-lo, de modo a acabar com a pobreza e reduzir a desigualdade que assola o mundo. Já vivemos um colapso ecológico e humanitário. É preciso consertar isso com urgência, ou o futuro será viver em Marte ou em estações espaciais, como no filme “Elysium”, privilégio, porém, que será reservado somente aos bilionários.
Para trás, ficarão os deserdados, aqueles que não terão acesso a essa novas Arcas de Noé. Mas o destino poderá também ser outro, com uma revolta dos miseráveis de proporções bíblicas, cujo desfecho ninguém ousará profetizar.