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Plínio Bortolotti integra do Conselho Editorial do O POVO e participa de sua equipe de editorialistas. Mantém esta coluna, é comentarista e debatedor na rádio O POVO/CBN. Também coordenada curso Novos Talentos, de treinamento em Jornalismo. Foi ombudsman do jornal por três mandatos (2005/2007). Pós-graduado (especialização) em Teoria da Comunicação e da Imagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

São equivocadas as críticas à carta de Barra Torres

O senão que faço à nota do presidente da Anvisa é quanto à metáfora bélica em relação à pandemia: "Estamos combatendo o mesmo inimigo [Covid-19] e ainda há muita guerra pela frente". Pandemia não é guerra; vírus não é "inimigo invisível". Guerras acontecem entre seres humanos que, propositalmente, querem matar uns aos outros.

O mais recente inimigo do presidente Jair Bolsonaro, dos muitos que ele fabricou durante o seu mandato, é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ele ficou irritado pelo fato de a agência ter liberado a vacina para a prevenção de Covid-19 em crianças de cinco a 11 anos de idade. Pela vontade de Bolsonaro, elas deveriam ficar expostas à doença e à morte.

Inútil
Sem ter o que fazer, o presidente em um das "lives" — que vem a ser a única atividade da qual se ocupa em sua vida inútil — passou cerca de 40 minutos falando mal das vacinas. Depois, levantou suspeitas sobre a Anvisa e seus funcionários, textualmente: “O que que está por trás disso? Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual o interesse das pessoas taradas por vacina?” Uma clara acusação de que a agência estaria se movendo por interesses escusos.

Resposta
Na sequência, o elemento que ocupa a Presidência da República recebeu dura resposta do presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, escrita em primeira pessoa. Na nota, ele insinua que o Bolsonaro não segue os ensinamentos cristãos, que é mentiroso, e que teria contas a prestar com a honestidade.

Desafio
Por fim, desafia o presidente da República, caso tenha alguma suspeita contra ele ou outro servidor da Anvisa, que “determine imediata investigação policial”, sob pena de prevaricar (faltar com o cumprimento do dever). Bolsonaro ficou acuado, tanto é que, até agora, o presidente não teve coragem de falar sobre o assunto, nem mesmo no cercadinho dos fanáticos (*). Mas certamente, está preparando alguma vingança rasteira e covarde.

Treta
Como é de praxe (para usar um termo antigo) o assunto virou treta (para usar uma palavra da moda) nas redes sociais, com parte da esquerda criticando a nota de Barra Torres, entendendo que ele fez pouco e errado.

Discordo. Vou anotar os principais argumentos que li criticando Barra Torres, respondendo em seguida com um “Eu”.

1 — Barra Torres deveria ter respondido institucionalmente, em nome da entidade e não de forma pessoal.
Eu — Foi adequada a forma da resposta, Bolsonaro fez um ataque direto à idoneidade dos diretores e técnicos da Anvisa. O presidente pouco se importa com a institucionalidade. Ele foi confrontado ao seu modo. É a linguagem que entende.

2 — O presidente da Anvisa não defendeu a agência.
Eu — Não se pode acusá-lo disso. Sua postura firme em defesa da ciência dá aos técnicos a tranquilidade institucional para que os técnicos da Anvisa façam o seu trabalho.

3 — Trata-se de uma briga pessoal. A carta não defende o SUS.
Eu — Com Bolsonaro, tudo se transforma em “pessoal”, pois o sujeito vive de criar inimigos. Não sei o que Barra Torres pensa do SUS, mas não era o sistema que estava em questão.

4 — Barra Torres é conservador e cristão como Bolsonaro.
Eu — Ser conservador e cristão não é crime; pelo contrário, é um direito de qualquer cidadão. Além disso, Bolsonaro não é conservador, é um reacionário, de extrema direita. Há uma diferença imensa entre os dois conceitos.

Guerra
O senão que faço à carta de Barra Torres é quanto à metáfora bélica em relação à pandemia: “Estamos combatendo o mesmo inimigo [Covid-19] e ainda há muita guerra pela frente”. Pandemia não é guerra; vírus não é “inimigo invisível”. Guerras acontecem seres humanos que, propositalmente, querem matar uns aos outros.

Servidor
Não sei o que Barra Torres fez ou fará em sua vida. No entanto, tirante o tropeço inicial quando assumiu a Anvisa, participando com Bolsonaro de uma aglomeração sem máscara — pela qual se desculpou, garantindo que nunca mais ocorreria — ele vem se comportando de acordo com o que se espera de um verdadeiro servidor público, como também ficou demonstrado em seu depoimento à CPI da Pandemia.

Ainda assim, continuo entendo como equivocado que militares da reserva ocupem cargos públicos, o que somente deveria ser permitido depois de reformados.

* * *

(*) Depois de publicado este artigo, vi que Bolsonaro falara ao assunto ao programa “Os pingos nos Is”, da Jovem Pan. O presidente disse o seguinte, com relação à nota de Barra Torres: "Carta agressiva, não tinha motivo para aquilo. Eu falei ‘o que está por trás do que a Anvisa vem fazendo’ [referência à vacinação de crianças contra a covid-19], ninguém acusou ninguém de corrupto. Por enquanto, não tenho o que fazer no tocante a isso aí”,

Primeiro que Bolsonaro não tem moral nenhuma para reclamar de agressividade, pois ele é a própria truculência. Depois, mostrou covardia, explicitada por suas próprias palavras. Fez uma acusação e quando recebeu um tranco, recuou tentando desdizer o que disse. Mentiroso, portanto. (às 11h20min, 11/1/2022)

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