Plínio Bortolotti integra o Conselho Editorial do O POVO e participa de sua equipe de editorialistas. Mantém esta coluna, é comentarista e debatedor na rádio O POVO/CBN. Também coordenada curso Novos Talentos, de treinamento em Jornalismo. Foi ombudsman do jornal por três mandatos (2005/2007). Pós-graduado (especialização) em Teoria da Comunicação e da Imagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
"Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco pode fazer piratas, o roubar com muito, Alexandres." (Sermão do Bom Ladrão, do padre António Vieira, escrito há 370 anos, em 1655, mais atual do que nunca)
Foto: Banco Master/Divulgação
DANIEL Vorcaro, dono do banco, foi preso
A desembargadora Solange Salgado da Silva (TRF 1) revogou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, dono do banco Master, e de outros quatro detidos na operação Compliance Zero da Polícia Federal (PF). Como se sabe, Vorcaro é acusado de uma fraude que pode chegar a R$ 12 bilhões, prejudicando investidores e instituições previdenciárias de pelo menos 18 estados e municípios, impactando dezenas de milhares de aposentados e pensionistas do serviço público.
A decisão da Justiça afastou o risco de fuga, estabelecendo medidas cautelares, como retenção dos passaportes e obrigatoriedade do uso de tornozeleira eletrônica.
Ocorre que o dono Master deve ter muitos milhões espalhados por paraísos fiscais — e uma frota particular com três aeronaves. Não será uma tornozeleira eletrônica que o impedirá de fugir. Ainda lembrando que ele, caso pense em evadir-se, vai usar um método mais sofisticado do que “meter o ferro quente” no aparelho localizador.
Se o beneficiado da soltura fosse um jovem preto, preso portando uma trouxinha de maconha, certamente os nícolas da vida estariam gritando o famoso jargão de “a polícia prende e a Justiça solta”.
Ocorre que o ex-banqueiro parece dispor de fácil trânsito no meio político. Uma falcatrua de tamanha proporção nunca seria possível fosse Vorcaro um franco atirador, sem conexão alguma nos meios políticos e entre as altas rodas da elite endinheirada.
E é preciso que a Polícia Federal faça as devidas verificações sem se importar com a acusação de que estava agindo “politicamente”. Como dizem os defensores da prisão indiscriminada para a arraia miúda, atentar contra a lei é uma escolha. Que os criminosos de colarinho branco (como se chamava antigamente) arquem com as consequências dos seusatos criminosos.
A propósito, conta o padre António Vieira, no “Sermão do bom ladrão”, que levaram à presença de Alexandre Magno — que navegava com uma poderosa armada para conquistar a Índia — um pirata que andava roubando os pescadores. Alexandre repreendeu-o severamente, mas o ladrão era atrevido, respondendo ao imperador:
— "Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca sou ladrão, e vós porque roubais em uma armada, sois imperador?"
— Concluiu Vieira: "Assim é. O roubar pouco é culpa , o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco pode fazer piratas, o roubar com muito, Alexandres".
O sermão foi escrito há 370 anos, em 1655, mais atual do que nunca.
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