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Raymundo Netto é jornalista, escritor, pesquisador e produtor cultural, autor de obras premiadas, em diversos gêneros ficcionais ou não. É gerente editorial e gestor de projetos da Fundação Demócrito Rocha.

Telhado de Vidro

Tipo Opinião

"Meu amor, não é o que você está pensando..." Essa afirmação tão ridícula quanto a outra de "nunca ter acontecido comigo antes" saiu da boca de um perplexo Aquiles quando descoberto em flagrante.

Era alta madrugada. Odisseia acordou e deu pela ausência do marido na cama. Estava ele num canto do quarto, olhar vidrado na tela do celular, mordendo os beiços com apetite, o que ela constatou pela luminância do aparelho em seu rosto.

Agora, Aquiles gaguejava, agarrado fortemente ao celular, enquanto a colérica mulher, fazendo uso dos poderes concedidos pela bíblica curiosidade feminina, o arrancava violentamente de suas mãos, para depois perceber, com inusitada frustração, que o objeto daquela atenção não era a suposta pornografia, mas, sim, apenas um gamezinho desses quase infantis. Mais inocente do que isso, só se estivesse embalando um nenê. Desconcertada e hesitante, ainda o menosprezou: "Um cabra velho desses, acordando de noite para ficar com joguinhos? Tenha vergonha, seja homem. Pensei que era mulher pelada!"

O marido, lenta e silenciosamente, escorregou pela colcha da cama, se enrolou com um pedaço de lençol permitido pela ofendida esposa - que ainda resmungava - e, em posição fetal, fechou os olhos e adormeceu.

Pela manhã, à mesa do café, Odisseia não perdoava. Ria-se, zombava de Aquiles, e dizia, balançando a caneca no ar: "Claro que você não pode ter disposição para trabalhar. Passa a noite agarrado a joguinhos eletrônicos... Vou te contar, viu?"

Um sábado, cumpria ela o ritual de suas tardes de salão de beleza, quando, na falta de assunto, desabafou com alguma graça e descontentamento aquela história para as amigas. Elas caçoaram do marido: "Como é bobo o Aquiles, gente...".

Com pouco, no atávico confessionário das madeixas, as clientes começaram a dar pitaco na vida da Odisseia e, curiosamente, a revelar histórias, naquele contexto, engrandecedoras dos feitos de seus infiéis maridos que, ao contrário do abestalhado Aquiles, eram bem ousados. E não se restringiam à pornografia, ao sexo virtual, troca de nudes ou encontros às escuras, esses fetiches bem anos 90, mas à presencialidade da sem-vergonhice institucional mesmo, envolvendo casos de affair com belas e magérrimas mulheres, supostas viagens de negócios convertidas a férias conjugais em praias paradisíacas, as faturas intermináveis de cartões de crédito com penduricalhos às amantes, as escapadelas do serviço com a colega de trabalho para motéis - cumprindo a máxima "Antes de tarde, do que nunca" -, os frequentes desaparecimentos, após um suspeito banho de colônia, em clubes de uísque, partidas de futebol ou de cartas com os "amigos" todas as sextas, a coleção de B.O.s por "roubo" de aliança e celulares, entre outros casos bizarros da mais pura sacanagem matrimonial.

Enquanto todas gargalhavam sob as escovas atentas dos pacientes cabelereiros, superiora, alguém ainda sentenciava: "Eu acho é bom. Assim ele me deixa em paz!"

Odisseia esboçava um sorriso de pose, mas estava pasma e, ao mesmo tempo, sentia-se humilhada, ali, no centro da arena das mais tórridas aventuras. Interrompeu o tratamento, "esquecera uma panela no fogo" e correu para casa. "O que as amigas pensariam dela?"

Qual não foi a sua surpresa, quando, ao entrar aos prantos no quarto, encontrou Aquiles com calcanhar e tudo no mais idílico pelo, agarrando os seios fartos e então ofegantes de Felicidade, a diarista. Assim, o marido saltou rapidamente aos pés da esposa, confirmando o seu tradicional script: "Meu amor, não é o que você está pensando..."

Odisseia rebentou um sorriso, colocou a bolsa novamente no ombro, deu meia-volta e saiu correndo ao salão para contar a novidade: "Eu acredito, amooor... Eu acreditooooo..."

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