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Raymundo Netto é jornalista, escritor, pesquisador e produtor cultural, autor de obras premiadas, em diversos gêneros ficcionais ou não. É gerente editorial e gestor de projetos da Fundação Demócrito Rocha.

Memorialva

Há todos os dias cabulosos.

Ante a manhã, se esclarecia: à parede, azulejavam mosaicos coloridos, pedras, vidros, restos de lembranças, rastos de vidas a descer pela coluna diante dos olhos claros, verdeados, de passados brilúmens a se esparramar como o silêncio no quarto vazio.

As paredes nuas em sombras a sacudir-lhe a memória; a remexer o desvão escuro dos medos; a segredar-lhe os romances secretos que não vieram nem virão; a confessar-lhe a ausência de rasgar o coração.

Sonhava-se insone.

À janela, outra parede vinha imprevista — sem remorsos — a estorvar os céus de suas lembranças.

Sobre as telhas enegrecidas, garrafas de plástico, pneus, gatos preguiçosos a desfiar estopas usadas, as manhãs quando a passarada estalejava o sol em asas amarelas.

No canto do quarto, aranha porfiava contra formiga na trama de uma teia. A morte breve, repentina.

Nos tacos, marcas de arrastos pés de cadeiras de palhinha pondo a dormir os olhinhos de retrós arregalados e cabelos retorcidos em fios de loiras lãs. Nos mesmos tacos, os pregos surgindo, a emenda com cimento, o desamor cruel de estranhos moradores a estilar infelicidades.

Baratas! Baratas! Baratas! Odiava baratas!

Nos rodapés, a lama negra, a tinta que salta, a bituca de cigarro, a folha seca que só — e acidentalmente só — desce, o cupinzal abandonado.

A parede ao lado ainda aguava da pia do banheiro. Gélida e nua, tiritava. Frio, frio... Escuro!

A apática porta lhe abria o incômodo do tempo que se perdeu, e, mesmo assim, ela não saía. Ela não saía. Ela não se ia nunca, esperando o fim da eterna idade de não chegar, a envelhecer triste como o quarto vazio, como ela, e cheia de baratas por dentro.

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