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Raymundo Netto é jornalista, escritor, pesquisador e produtor cultural, autor de obras premiadas, em diversos gêneros ficcionais ou não. É gerente editorial e gestor de projetos da Fundação Demócrito Rocha.

Abusiva

"Não há no mundo quem te ame mais do que eu! Não tem, viu?"

Augusto ouvia essa cerimoniosa, sonora e indefectível declaração todos os dias durante anos de casamento. Sabia: depois dela, inútil argumentar. Assistiria, então, à saída dramática da esposa, dando-lhe as costas e enxugando os olhos correntes. Depois, ela se enfurnaria no banheiro por horas, como a contar diante do espelho uma a uma das lágrimas roubadas. Mesmo assim, ainda o despertaria, a hora que fosse, abandonada de si, rogando quilométricas desculpas e promessas em nome daquele imorredouro amor.

Camila o amava demais. Mais do que o permitido por lei, de forma quase abominável. Maior do que ele, apenas a insegurança e o ciúme devotados àquele marido severamente asfixiado: "Te respeita, mulher... Me deixa em paz!"

Noites demais, Augusto despertaria subitamente por Camila, em olhos transfigurados: "Você ainda me ama? Eu te amo, te quero tanto...".

No começo, ele achava aquilo "engraçadinho", "fofo", mas com o tempo e a insistência, tornou-se in-to-le-rá-vel: "Meu Deus, eu não posso nem mais dormir?". Também quando assistia às partidas de futebol ou lia atento o seu jornal, era comum ela inventar motivos para ficar passando na frente da TV, mudar o canal ou enganchar-se ao seu pescoço, cobrindo-lhe de beijos caudalosos, a tentar levá-lo para cama.

Com o tempo, Augusto passaria a chegar mais tarde em casa, fazendo qualquer coisa ou coisa nenhuma, na vã tentativa de ela já estar dormindo. Mas Camila o esperava sempre. E, com o entusiasmo de abertura de loja em promoção, jogava-se em cima dele - mais e mais beijos -, trançava um rol de perguntas incômodas, comia do seu prato, fuçava sua mochila, os bolsos da calça, cheirava suas roupas. Uma obsessão medonha.

Quando encontrava a mãe, irmãs ou nora, aflita, exasperava-se no relato da incompreensível agonia do marido. Elas recomendavam fosse devagar, com calma, afinal, ele não lhe dava motivos para ciúmes ou desconfiança. Ela revoltava-se: "Coitadas de vocês que nunca sentiram um amor assim como eu. Eu morro de amor. Morro!" Entreolhavam-se em silêncio e com certo pavor.

Um dia, ele chegou mais cedo em casa. Calado, desviou-se dela e dirigiu-se ao quarto do casal. Lá, começou a sequestrar as roupas do armário e lançá-las numa velha mala. Camila, perplexa, o questionava. Augusto, numa sinceridade perversa, bradou: "Não te aguento mais! Vou-me embora daqui antes que..." Nem concluiu. Ela já estava aos seus pés, súplice como uma escultura de Claudel, na defesa de seu amor eterno. Mal sabia ela que, para ele, "eterno" soava como "inferno". O inferno daquele amor.

Com a mala em punho, empurrou a mulher e correu para a escada. Camila, desesperada, saltou e agarrou-lhe as pernas, fazendo com que ele tombasse pelos degraus até o encontrarmos estatelado no soalho frio, ora tinto de sangue entornado da cabeça.

Meses depois, Augusto voltaria a casa. Com o trauma, imóvel do pescoço para baixo. Não conseguia falar e, agora mais do que nunca, era-lhe difícil engolir. Porém, enquanto todos cuidadosamente tentavam consolar a esposa, dar-lhe força, parecia ser ela a menos abalada. Sorria com mais frequência no desvelo exemplar ao seu marido paralítico.

À noite, então, do nada, acordaria com forte abraço o indefeso Augusto, entregue e inerte na sua cama-cárcere: "Está sonhando com o quê, amor? É comigo, não é? É comigo?"

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