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Raymundo Netto é jornalista, escritor, pesquisador e produtor cultural, autor de obras premiadas, em diversos gêneros ficcionais ou não. É gerente editorial e gestor de projetos da Fundação Demócrito Rocha.

Pretume

A mulher só se vestia de preto. Assim como pretos eram os seus móveis, os talheres, pratos, as cortinas, o abajur, os estofados, a graúna, o sorriso e o gato. Nada de flores na janela, nem folguedos de crianças, beijos de novelas ou esperanças. Pior: a casa toda era esmorecida, rancorosa, viciada em grave e infindável melancolia. Imersa na solidão das horas vãs, maisqueria se jogar pela vidraça, sentir o gume ligeiro dos seus estilhaços, apartar-se mole pelas coxias, diluir-se entregue nas bocas de lobo, acolher de bom grado o peso imposto do telhado carcomido, eriçar o pelo na tomada da parede, engolir trufas até docemente estourar, calar de vez o vazio do peito e a loucura a pinçar-lhe obscuras e desgrenhadas ideias.

No seu quarto, asilo maior daquele mal-estar olímpico, a cama nunca feita, o travesseiro enfronhado de mágoas. Via-se ao corredor de tacos frouxos roupas urdidas e abandonadas em sujidades pretéritas pelo caminho. No banheiro, o espelho coberto por toalha e o chuveiro inútil. À cozinha, a torneira pingando na louça desapressada e a umidade pustulando nas paredes rotas em papel.

Ao longo dos dias, a graúna sem canto, o gato sem língua, o silêncio apenas cortado pelo, então, estrondoso zunir de asas de insetos. Livres, apenas os insetos.

Anos-há, ali, a mulher não permitiria a entrada de ninguém, nem do Sol nem da Lua.

À Martir, sua irmã, apenas a ela, permitia o ingresso naquela casa, e unicamente quando trazia os suprimentos para a despensa ou eventuais mezinhas.

Martir, abafada de calor, sentava-se na marquesa ao lado da janela e ensaiava abrir as cortinas, quando imediatamente reprimida pela irmã: “Não abra! Doem-me os olhos. Deixa assim, deixa!”

Martir insistia: “Mas o ar, mulher, como você suporta isso?”

“Que ar? É ar que você quer? Então vai lá fora, vai. Lá fora tem de sobra!”, respondia, apontando-lhe impaciente a porta da sala.

Martir se calava, resignada como estátua de jazigo. Detinha-se, porém, no instante de um suspiro. Sempre ansiou por uma palavra, qualqueruma: confissão, recomendação, curiosidade, descuido ou o que quer que fosse, mas nunca. Não suportando tanta mudez e o olhar quase de vidro, despedia-se, a prometer a si mesma nunca mais pôr os pés naquele ninho da morte: “Você é louca, só pode ser... E eu devo ser ainda mais se um dia eu ainda voltar aqui!”

Uma manhã, a mulher acordou e viu, de relance, os pés escuros como tisne. Esfregou as mãos nos olhos na tentativa de enxergar melhor, quando percebeu, também elas, mãos e unhas estranhamente enegrecidas. Pensou em gritar, pedir socorro, mas para quem? Não havia outra alma em casa. Não sabia o nome dos vizinhos e mesmo se os tinha. Mesmo assim, gritou, mas a voz não lhe saiu, e, sim, uma névoa espessa como a fumaça abundante de velhas locomotivas.

Correu ao banheiro para lavar o rosto e descerrou o espelho coberto há anos. Aterrorizou-se pela própria imagem: apenas os olhos, ainda que cinzentos, reconhecia. Os cabelos grossos e rentes lhe desciam como raízes rijas pelos ombros, pelo peito e abdome.

Amolecida, ela deitou em sua cama e, aos poucos, sua pele pôs-se a descamar. Como cinzas de uma fogueira, esses restos de corpo se deslocavam flutuantes e leves pelo ar. Aos poucos, o seu corpo, todo ele, se confundia com as folhas da mais absoluta escuridão, a ponto de não restar dela sequer o nome, a história, uma saudade nem pensamento.

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