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Raymundo Netto é jornalista, escritor, pesquisador e produtor cultural, autor de obras premiadas, em diversos gêneros ficcionais ou não. É gerente editorial e gestor de projetos da Fundação Demócrito Rocha.

Bagulho

Tipo Crônica

"Essa mulher é um bagulho! Olha só, gente! Ha, ha, ha..."

No bar, sede maior da democracia e da galhofa brasileira, onde também as mesas masculinas esticam as noites mais simplórias de pileques, carros, futebol e mulheres, a atenção daqueles amigos voltava-se à calçada para conferir o alvo da maldosa pilhéria.

Entre eles, Jurandir, o sempre alegre e carismático motorista de Uber, que, como os outros, correu à janela. Todavia, enquanto todos a apontavam, rindo a valer, deliciando-se daquela cruel mangação e, por tabela, imaginando o triste par daquele "bagulho", ele voltou-se, de fininho, e correu ao banheiro. Ali, a postos e diante do mictório, Jurandir, envergonhado, se punia: "O bagulho é a minha mulher!"

Suzete, era esse o nome de sua sua esposa, foi a inapelável paixão de sua juventude. E não só a dele. No furor destemperado de hormônios contidos de adolescentes, era cobiçadíssima pelos garotos do bairro, por conta da sua beleza e da volumosa retaguarda, sendo por eles apelidada de Suzy Locomotiva ou Su Tanajura.

Não raro, na época, Jurandir ouvia os lamentos de recusas que ela distribuía soberbamente à rapaziada mais ousada, o que conferia a ela uma aura quase divinal.

Daí estranhar que, em uma festinha num clube mixuruca de bairro, ela mesma tenha dado bola a aquele jovem extremamente tímido e gorducho.

Durante meses, Jura assistia, com o orgulho de ganhador de loteria, aos colegas inconformados: "O que diabos essa mulher viu em você?" Ora se ele sabia! Estava feliz, despudoradamente fascinado pela namoradinha a quem dedicava declarações de amor eterno, decoradas de falas de telenovelas. Com ela, sua primeira vez e todas as demais de sua vida. Assim, casaram-se, e na fúria de seus impulsos de paixão alucinada, que fazia tremer as paredes finíssimas da casa de conjunto sem forro e geminada comprada a perder de vista, colheram cinco filhos, quase que em escadinha, isolando-os do convívio social.

Num ato de bravura e para dar conta, Jurandir trabalhava todos os dias, antes, como motorista de ônibus e, depois, taxista, enquanto Suzete enfrentava o pandemônio da rotina da filharada e da casa, alimentando-se de comida barata, servida a granel, e descuidando-se completamente de si.

Ainda no banheiro, o velho Jura via passar por seus olhos, e pela parede marcada por impropérios, números telefônicos e propostas indecorosas, o filme do romance de sua vida. Fechou a braguilha, saiu dali e, sem pagar a conta nem falar com seus colegas de mesa, voltou para casa.

Ao chegar, Suzete já dormia, enrolada na colcha extravagante. Admirava-a, em silêncio: "Bagulho... Bagulho?" Aquela palavra, para ele incompreensível e ultrajante, trazia uma gravidade a ferir-lhe mortalmente o mais íntimo de sua alma.

Naquela noite mesmo, resolveu: romperia com aqueles homens, passaria a frequentar outro bar e até deixaria de beber... Claro, mas só no caso de um fatalismo profético!

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No dia seguinte, ainda consternado com o acontecimento, cumpria sua rotina de Uber quando atendeu ao chamado de um jovem, estilo jamaicano, descolado, colorido e com um gorro forrado de dreads. O rapaz o achou disperso, meio de bode, e, tirando da mochila uma sacola surrada de papel, sondou: "E aí, coroa, tu curte um bagulho?"

Jura, diante de inusitado questionamento, sentiu uma vertigem absurda, desequilibrou na direção, subiu a calçada e, ao brecar drasticamente, gritou com seu assustado passageiro: "Eu AMO o bagulho, entendeu? Eu AMOOO!!!"

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