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Raymundo Netto é jornalista, escritor, pesquisador e produtor cultural, autor de obras premiadas, em diversos gêneros ficcionais ou não. É gerente editorial e gestor de projetos da Fundação Demócrito Rocha.

O Corpo Nu

Tipo Crônica

"Desaforo! Sacrilégio! Blasfêmia!" O padre, convidado para celebrar a missa de passagem do morto, horrorizou-se ao ver que ele, bem deitado e curiosamente sorridente no esquife, estava absolutamente nu. Elias, amigo fiel de Betinho - esse é o nome do falecido -, ponderou: "Na vida nada se leva, seu padre. É o desejo dele".

Pasmo em sua autoridade, o sacerdote enxugou a testa calva com a estola: "Como assim? Quem ele pensa que é?" "O defunto?", retornou quase cínico o Elias. "Ora, vamos, morto não tem querer, meu jovem", sendo imediatamente corrigido: "Esse tem, seu padre, e é ser enterrado nu."

No velório, poucas testemunhas, apenas uns quatro amigos de boemia e um maior número de ex-namoradas, amigas e amantes velavam Betinho. Como exige a boa etiqueta funerária, aproximavam-se do caixão, examinavam-no da cabeça aos pés com atenção - e, por vezes, com sinistro entusiasmo - e despejavam lágrimas inconsoláveis. Algumas, a sós com o cadáver, até abraçavam o féretro, como se a tirar a última casquinha do falecido. "Como morreu?", perguntavam. "De amor. Nunca amou, mas quando aconteceu, lhe foi fatal". Assim, elas puxavam o lenço e o olhar para ele, debulhando um choro incomum de dor de saudade e, ao mesmo tempo, de traição e rejeição. Isto para um morto é a morte!

O padre, em meio ao rebanho distraído, pedia forças aos céus para salvar aquela alma da ruína do pecado. Não conseguia nem olhar para aquilo: "Chegar nu à frente do Senhor? Indecência!" Elias insistiu: "Mas, seu padre, e ele não veio de lá assim?" Mesmo não sendo grande cristão, Elias cumpriu o catecismo básico imposto na época do colégio e argumentou: "E não é de Jó, aquele homem da paciência, lembra? Aliás, o senhor precisa aprender com ele, viu? Pois é, em Jó, encontramos: 'Saí nu do ventre da minha mãe, e nu partirei. O Senhor o deu, o Senhor o levou'".

"Está repreendido, meu filho! Eu não posso anunciar a vida eterna a esse, a esse... depravado inconsequente nessas condições. Não posso!"

Enfim, deu-se assim a melódia. Os amigos, doidos para ir ao bar e percebendo que aquela missa não ia sair mesmo, se determinaram: reuniram-se, empunharam as alças do caixão e saíram num cortejo desembestado capela afora em direção ao cemitério. O padre inquietou-se com a profanação. Arrepanhou a batina e, agitando a pesada cruz, passou a perseguir os "sequestradores", batendo em suas cabeças e conclamando, ali mesmo, com auxílio de um coroinha sonolento, a cruzada católica do tapa-sexo, na tentativa de salvar dos infernos a alma do pobre Betinho, aos solavancos naquele caixão. "Irmãos, fechem esse portão! O campo é santo... santoooo!", berrava o padre.

Daí, diante do portão do cemitério, agora trancado e guardado por um renque de carolas, a batalha continuou fervorosa. O padre, o coroinha, duas beatas e um bêbado puxavam o caixão de um lado, enquanto os amigos de Betinho o puxavam de outro, estraçalhando-o e deixando estatelar o corpo na calçada. Isso não impediu que o inflamado bate-boca continuasse, cercado por uma plateia anônima de curiosos que tomava as dores e o partido do padre ou dos amigos de Betinho. E essa zoada só findou, quando o morto, impaciente com tal indefinição, escalou feito lagartixa e pulou o muro do cemitério, desaparecendo das vistas assombradas e em busca, ele mesmo, da sua derradeira e desejada pá de cal, o aceno final de despedida a esse mundo de gente má e hipócrita.

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