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A morte não se anuncia
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Raymundo Netto é jornalista, escritor, pesquisador e produtor cultural, autor de obras premiadas, em diversos gêneros ficcionais ou não. É gerente editorial e gestor de projetos da Fundação Demócrito Rocha.

A morte não se anuncia

Raymundo Netto: "A vida de cada um importa e muito. Devemos ser generosos com quem nos elege e procura"
Tipo Crônica
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Imagem ilustrativa para crônica de Raymundo Netto (Foto: Fernanda Barros/ O Povo) (Foto: FERNANDA BARROS)
Foto: FERNANDA BARROS Imagem ilustrativa para crônica de Raymundo Netto (Foto: Fernanda Barros/ O Povo)

"Viver é muito perigoso!", disse na voz jaguncesca de um Riobaldo, o homem das veredas do Grande Sertão.

Por todos os meios, em quase delírios, lemos e ouvimos ser a vida o nosso maior presente, o patrimônio-motor da existência, a grande dádiva divina e outros clichês a estampar rodapés de agendas, cartões industriais, TVs religiosas e irritantes postagens em redes sociais. Da mesma forma, por incrível que pareça, chega a rotinar o encontro inesperado com aqueles nos quais encontramos a devota e suicida vocação para a morte.

No percurso da minha vida, principalmente na juventude, pessoas, às vezes completamente estranhas, sentavam-se ao meu lado em bancos de praça, pontos de ônibus - ou dentro deles - e sem cerimônia alguma começavam a desfiar a vida conflituosa, repleta de dúvidas atrozes sobre relacionamentos filiais, românticos ou sobre o sentido de sua própria existência. Alguns desabavam em um choro antigo, enquanto outros mantinham o olhar apático, confessional e fixo em algum ponto do nada. Ambos, em determinado momento, quase aos sussurros, concluíam: "Já pensei em me matar!"

O silêncio abafado se quedava entre nós. Olhava estarrecido para elas. Confesso, pensava: "Por que eu?" Naquele tempo, inexperiente e jovem demais, cria precisar falar alguma coisa, qualquer uma. Hoje, sei demais o quanto as palavras são insuficientes. Contudo, não queria repetir discursos ufanistas, nem dogmáticos, não ousaria o arrogante argumento "Só Deus pode tirar a vida" ou "Tanta gente querendo viver e você...".

Eu sabia: não tinha o direito de julgá-las. Eu não sabia nada sobre aquela vida. Hesitante, por vezes, pegava em sua mão ou passava a minha em suas costas, e diante de minha total incompetência, tentando modular calma e tranquilidade na voz, dizia: "Não diga isso. Nunca mais". Noutras, buscava conhecer mais de sua vida, colher alguns bons momentos dela - quando isso era possível - ou quem sabe algum sonho ou desejo que ficara para trás. Quem sabe valesse a pena acreditar, viver e lutar por ele?

Diante da situação de suicídio, é comum as pessoas procurarem uma razão, um motivo que justifique tal ato, quando, na verdade, nunca é tão simples assim, como arrumar as malas e ir embora. Em alguns dos casos vivenciados, amigos e familiares relataram: a pessoa estava aparentemente bem antes de ser encontrada morta. A família, namorado, namorada, amigos contavam de seus planos e de nunca terem notado qualquer alteração que revelasse ideário ou intenção suicida. Por isso, até se sentiam como que culpadas.

Eu mesmo, durante bom tempo, desde a adolescência, pensava na morte todos os dias. Dizia a amigos: "Acho que vou morrer cedo". Às noites, acordava com uma voz sombria como a ecoar: "O Netto morreeeeuuu!" Nessa época, via espíritos ou imagens noturnas a caminhar pela casa. Alguns tentavam falar comigo. Havia também seres com velas a aproximar-se e a derramar a sua cera quente em minha mão. Quando acordava, onde a suposta cera caíra, ainda sentia a dor da queimadura e a pele ainda vermelhecida.

Com o tempo, as visões e vozes desapareceram, mesmo quando passei, mais tarde, anos morando sozinho. Assim, durante algum tempo, quando abordado por esses potenciais suicidas, poderia julgar serem mais alguns desses espíritos errantes, não materiais, sempre inconformados com esse incompreensível mundo no qual nunca se adequaram. Como eu.

A vida de cada um importa e muito. Devemos ser generosos com quem nos elege e procura. Buscar a melhor forma de encaminhá-los, se preciso, para profissionais experimentados nesse auxílio. Ouvi-los é muito mais útil do que encher os seus ouvidos com frases de efeito de velhos panfletos de calçada. Com tolerância e amor, devemos estar no lugar do outro, sentir o seu sentimento, a sua dor, reconhecer nele a nossa humanidade e sermos sempre humildes, pois apesar de perigosa esta vida vale o risco.

 

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