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Regina Ribeiro é jornalista e leitora voraz de notícias e de livros. Já foi editora de Economia e de Cultura do O POVO. Atualmente é editora da Edições Demócrito Rocha

Quanto mais Bolsonaro conspira, pior para o Brasil

O nível de ameaças, o envolvimento dos adeptos da força e da violência como método e as incertezas que a essa altura rondam nossas cabeças só pioram as expectativas de um mínimo de estabilidade da nossa Democracia adoentada
Tipo Análise
Alejo Carpentier, romancista e ensaísta, autor de O reino deste mundo (Foto: DIVULGAÇÃO )
Foto: DIVULGAÇÃO Alejo Carpentier, romancista e ensaísta, autor de O reino deste mundo

Credita-se ao romancista e ensaísta cubano Alejo Carpentier uma frase que se propõe a fazer uma síntese das narrativas históricas latino-americanas que unem fatos reais a aspectos de um "realismo mágico" que encontramos na literatura de vários autores da região como Garcia Márquez, Carlos Fuentes, Juan Rulfo, o próprio Carpentier entre outros. A frase é a seguinte: “O que é a história da América Latina senão uma crônica do real maravilhoso?”

Na obra “No reino deste mundo”, Carpentier ficciona a criação de Haiti como nação a partir de um personagem que ao chegar ao poder lança mão das crenças mais tradicionais do lugar, subjuga o próprio povo e constrói um castelo usando sangue de boi na argamassa da edificação, porque acredita que o líquido o impedirá de sofrer qualquer derrota. A metáfora sobre a perversidade como exercício de poder atinge o ponto crítico quando os bois se extinguem, e ele toma uma decisão ainda mais dramática e cruel. Mas isso é pura ficção. Ficção que nos ajuda a encarar a realidade.

 

"O nível de ameaças, o envolvimento dos adeptos da força e da violência como método e as incertezas que a essa altura rondam nossas cabeças só pioram as expectativas de um mínimo de estabilidade da nossa Democracia adoentada."

 

No Brasil de hoje, vivemos sob o efeito nefasto de um presidente que torna a irrealidade das conspirações que sua mente doentia rascunha em efeitos reais com os quais temos de lidar dia após dia. Bolsonaro e seus ministros são pródigos em absurdos. Já tivemos um ministro da Educação que parecia odiar universidades a quem acusava de “baderneiras”. Um ex-ministro da cultura propôs uma guerra cultural aberta. Um ex-ministro das Relações Exteriores pregava, aos quatro ventos, sobre um sistema globalista que ataca de forma letal a família e a religião, por isso, seria necessário combatê-lo.

Bolsonaro, adepto do conspiracionismo em nível máximo, crê piamente que há uma conspiração entre o Poder Judiciário, a imprensa “esquerdista”, uma parte “corrupta” do congresso e alguns homens de negócios insatisfeitos que querem apeá-lo do poder. Em luta, decidiu, de forma quixotesca, combater o regime eleitoral com unhas e dentes, defendendo eleições “limpas”. Achando pouco, está transformando o dia 7 de setembro no dia futuro mais estranho das nossas vidas cívicas.

O nível de ameaças, o envolvimento dos adeptos da força e da violência como método e as incertezas que a essa altura rondam nossas cabeças só pioram as expectativas de um mínimo de estabilidade da nossa Democracia adoentada. Enquanto Bolsonaro conspira, o Brasil piora.

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