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Por que "O Avesso da Pele" está sendo censurado nas escolas?
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Regina Ribeiro é jornalista e leitora voraz de notícias e de livros. Já foi editora de Economia e de Cultura do O POVO. Atualmente é editora da Edições Demócrito Rocha

Por que "O Avesso da Pele" está sendo censurado nas escolas?

Para evitar o sofrimento de se reconhecer racista e indiferente ao sofrimento alheio, alguns acham que é melhor eleger uma cena qualquer de um livro e censurar a leitura
Tipo Análise
Jeferson Tenório é um escritor, professor e pesquisador brasileiro, radicado em Porto Alegre. Foto: Jeferson Tenório/ Instagram (Foto: Jeferson Tenório/ Instagram)
Foto: Jeferson Tenório/ Instagram Jeferson Tenório é um escritor, professor e pesquisador brasileiro, radicado em Porto Alegre. Foto: Jeferson Tenório/ Instagram

 

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Faz algum tempo que o escritor de “O Avesso da Pele”, Jeferson Tenório, carioca, radicado em Porto Alegre, sofre ataques e tem prestado boletins de ocorrência por ameaças feitas contra ele. Em 2020, ano do lançamento do livro pela Companhia das Letras, ele foi atacado por escrever um artigo sobre Paulo Freire no jornal “Zero Hora”, do qual era colunista. Em 2022, ao ser convidado para dar uma palestra numa escola em Salvador, foi ameaçado de morte e denunciou o caso à polícia baiana.

Desde a semana passada, o livro “O Avesso da Pele” e seu autor voltaram a ser notícia depois que a diretora da Escola Ernesto Alves, Janaina Venzon, em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, publicou um vídeo no Instagram afirmando que a obra seria incompatível para estudantes do ensino médio.

No rastro, um vereador daquele município publicou um vídeo repudiando a obra e escolas do Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul, até o momento, seguiram o movimento de defender a retirada da obra de suas escolas alegando que no livro há descrições “impróprias de cenas de sexo”, que seriam “inadequadas” a alunos de 14 a 18 anos.

Mas afinal, por que esse cerco ao “O Avesso da Pele?” O livro não traz nenhuma descrição de cenas de sexo, e sim, frases ouvidas pelo pai do personagem narrador – um homem preto – durante o sexo com uma mulher branca – numa narrativa contextualizada, do ponto de vista literário.

Será mesmo que uma ficção seria capaz de desnortear de algum modo ou causar prejuízos consideráveis em adolescentes que têm, na sua ampla maioria, acesso indiscriminado a informações de todos os tipos, incluindo sexo, nas mídias que estão nas mãos deles? Não seria o caso de aproveitar a obra para conversar com esses alunos num ambiente pedagógico mediado pela literatura?

Ou será que o problema real do livro está sendo escamoteado por esses arroubos irreconhecíveis por parte de pessoas adultas que trabalham com educação? Não seria o incômodo real a questão do racismo colocado no livro de forma tocante pelo escritor Jeferson Tenório?]]

“O Avesso da Pele” é uma ficção que dá voz a Pedro, jovem negro, cujo pai, também negro, professor numa escola pública de Porto Alegre, que narra como eles são atravessados pelo racismo. Suas vidas, apesar da aparente normalidade, selada por relações sociais que fingem que o problema não existe, experienciam em todas as áreas da vida – da profissão ao amor – a vertigem de uma pele que lhes causa mal estar. O principal deles é justamente a própria existência.

Ser negro não é fácil no Rio Grande do Sul, no Paraná, na Bahia, em Goiás, no Ceará. Ver-se no lugar do outro é uma tarefa que exige muito mais do que disposição. Às vezes, é mesmo insuportável e pode provocar reações. Para evitar o sofrimento de se reconhecer racista e indiferente ao sofrimento alheio, alguns acham que é melhor eleger uma cena qualquer de um livro e censurar a leitura.

“O Avesso da Pele”, em 2024, lembra o “Aparelho Sexual e Cia”, em 2018. Nas eleições pela frente, nada como um sexo recalcado para espalhar e fazer emergir as assombrações ideológicas que já ses conhece bem. E, de novo, o sexo ganha assume o protagonismo.

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