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Ricardo Moura segurança pública

Faixa de Gaza, Estados Unidos, Ceará: as múltiplas dimensões da violência armada

Chuvas de foguetes no céu, prédios desabando sobre o peso de bombardeios, crianças e idosos desabrigados vítimas de uma inimizade ancestral. As imagens que povoam os meios de comunicação e as redes sociais nos últimos dias são um sinal de que o conflito assimétrico entre judeus e palestinos foi retomado. Em termos de perdas de vidas humanas, estima-se que o confronto matou 5,5 mil palestinos e 251 israelenses, entre os anos de 2008 e 2020, de acordo com os dados das Nações Unidas.

Os números da violência no Oriente Médio são chocantes. O que mais impressiona, contudo, é que também produzimos uma quantidade imensa de vítimas letais: no mesmo período, entre 2008 e 2020, 46,6 mil pessoas foram assassinadas somente no Ceará. Quantas "faixas de gaza" existem em nosso Estado? A menção não é despropositada. Na periferia, as áreas de maior risco recebem essa denominação muitas vezes. É assim que os territórios de exceção são popularmente conhecidos pelos moradores nos bairros, tomando de empréstimo o imaginário de um confronto tão antigo e tão midiatizado que se tornou familiar.

A nossa "guerra civil" particular, como se pode ver pelas estatísticas oficiais, é tão ou mais letal do que o conflito entre israelenses e palestinos. Somente em abril deste ano, as baixas registradas no Ceará superam as mortes registradas pelos ataques mútuos mais recentes envolvendo os dois povos. O nosso drama, porém, não é televisionado: as vidas negras, jovens e periféricas se perdem em meio a vielas, becos e assentamentos precários diariamente sem que nos importemos com esse fato, de certa forma, naturalizado.

Em algum momento perdemos a sensibilidade social sobre as perdas de vidas humanas causadas pela violência armada no Estado. Não é possível precisar quando isso ocorreu, mas essa incapacidade de se indignar e de sofrer a dor alheia como se também fosse nossa não faz parte do nosso repertório de emoções. É mais fácil se indignar e se comover com o que ocorre há milhares de quilômetros do que com o que está mais próximo, ao alcance da esquina ao lado.

Haveria um processo de desumanização dessas vítimas estabelecendo um muro entre "nós" e "essa gente"? Só isso explica o fenômeno de não vermos a dor de tantas mães que perdem seus entes queridos como nossa também. O episódio do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, é um exemplo extremo de como o Estado pode eliminar vidas humanas de forma impune desde que elas sejam classificadas como corpos matáveis. Como ter empatia com o luto do "inimigo"? Essas questões me incomodam há pelo menos dez anos quando percebi que os homicídios de adolescentes, no Ceará, tornaram-se uma questão sociológica, mas passam longe de ser uma questão central em nossa sociedade. Convivemos sem maiores sobressaltos com esse conflito armado que assola comunidades inteiras todos os dias desde que estejamos protegidos. Como escrevi em uma coluna anterior: Fortaleza nunca mais se apavorou

Houve quem achasse que sairíamos melhor dessa pandemia. Diversos artigos foram escritos em tom otimista sobre esse futuro pós-pandêmico. Tratava-se, no entanto, de um mero desejo que não encontrou correspondência na realidade. A vontade de eliminar o Outro permaneceu alterada mesmo diante de tantas perdas provocadas pela Covid-19.

Nos Estados Unidos, os assassinatos em massa - em que quatro ou mais pessoas são mortas sem levar em consideração o atirador - aumentaram tão logo a população recebeu a vacinação e pode andar de forma mais livre pelas ruas. De acordo com um levantamento feito pela mídia local, dois assassinatos em massa foram registrados nos EUA em 2020. Neste ano, o número saltou para 11. Em Israel, a escalada da violência se deu pouco tempo depois da festa nas ruas pela possibilidade de não usar mais máscaras. O ódio estava em seu estado latente. Ele agora transborda e transpira.

A Taurus, fabricante nacional de armas de fogo, bate recordes em meio à escalada armamentista. Nos primeiros três meses de 2021, a empresa produziu o maior volume de armas da história da companhia para um trimestre. Foram 492 mil unidades produzidas. O lucro bruto aumentou em 131,8% na comparação com o 1º trimestre do ano passado. Trata-se do quarto trimestre consecutivo registrando lucro líquido. O aumento da capacidade de produção segue ao encontro de um mercado ansioso: atualmente há uma fila de espera de pedidos estimada em 2,3 milhões de armas.

Como se estivéssemos em uma corrida insana, não basta o tanto de mortes provocado pela Covid-19. Ainda não estamos fartos. Nossa sede de sangue exige que ainda mais pessoas pereçam por meio da violência armada: seja na Faixa de Gaza, nos Estados Unidos ou no Ceará.

 

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