Ricardo Moura é jornalista, doutor em Sociologia e pesquisador do Laboratório da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV/UFC)
Ricardo Moura é jornalista, doutor em Sociologia e pesquisador do Laboratório da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV/UFC)
Em agosto de 2015, escrevi uma coluna com o título "A paz consentida", que trazia achados da minha pesquisa de doutorado. Na época, três policiais me relataram uma situação semelhante: "líderes do tráfico de drogas em Fortaleza estariam pondo suas diferenças de lado e se organizando, diminuindo assim os conflitos interpessoais, causa primordial das mortes violentas. Um dos meus interlocutores citou até mesmo a realização de um encontro entre traficantes que teria reunido mais de 20 comunidades".
A essa movimentação no interior do mundo do crime, dei o nome de "paz consentida", fazendo um paralelo com o que ocorria em áreas como São Paulo, em que uma única organização criminosa predomina, pondo fim a boa parte dos conflitos armados. Em janeiro de 2016, tomamos conhecimento da existência da primeira facção cearense, a Guardiões do Estado (GDE), surgida como uma resposta armada ao avanço do Comando Vermelho (CV) e que contava com o apoio do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Os anos de 2015 e 2016 assistiram a uma espécie de acordo de paz entre CV e PCC, fazendo com que os índices de homicídios caíssem no Ceará. O período ficou conhecido como a "pacificação". Dez anos depois, a GDE já não existe mais, tendo sido assimilada em setembro, com direito a chuva de fogos, pelo Terceiro Comando Puro (TCP), rival do Comando Vermelho.
O TCP, por sua vez, se mostrou um adversário incapaz de sustentar suas bases na capital cearense e viu desmoronar seu poderio ao fim do ano. A facção vem sendo alvo de diversas operações policiais no Rio de Janeiro, seu local de origem, e isso teria contribuído para que sua condição ficasse insustentável em Fortaleza.
O marco simbólico da hegemonia do Comando Vermelho na capital cearense foi uma partida de futebol realizada no último dia 9, no Grande Pirambu, região em que disputas sangrentas entre facções fazem parte do cotidiano da população. O POVO descreveu o episódio da seguinte maneira: "para celebrar uma 'trégua' entre facções criminosas envolvendo os bairros do Pirambu e Colônia, faccionados, 'simpatizantes' e moradores resolveram organizar um jogo de futebol para 'selar a paz' entre as organizações dos respectivos bairros".
Há uma ironia histórica contida nesse fato. De acordo com alguns dos relatos sobre a origem da Guardiões do Estado, a facção teria se estruturado a partir de uma torcida organizada, no interior da rivalidade existente entre os times Ceará e Fortaleza. Não haveria forma melhor de expressar uma nova era no crime organizado por meio de um torneio amistoso. Como dizem, no Brasil o futebol é muito mais que um esporte.
Letalidade policial
é a maior desde 2018
O ano começa sob uma nova forma de "pacificação". As estatísticas de dezembro já demonstram isso. Foram registrados 235 crimes violentos letais intencionais (CVLIs), o menor número desde junho de 2025. Os dados do primeiro trimestre fornecerão um retrato mais nítido dos efeitos (ou não) dessa paz.
Na contramão dessa queda, a letalidade policial é a maior desde 2018, o segundo ano mais violento da História, com 4.518 assassinatos. Naquele ano, as forças policiais mataram 221 pessoas em ação. Em 2025, foram contabilizados 200 casos de mortes por intervenção policial. Há uma diferença relevante aqui, haja vista a polícia cearense ter se tornado mais letal a despeito da quantidade de homicídios. Vivemos, certamente, novos tempos.
Ricardo Moura é jornalista, doutor em Sociologia e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da UFC (LEV/UFC)
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