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Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, é especialista nas áreas de História da Arquitetura e do Urbanismo, Teoria de Arquitetura e Urbanismo, Projeto de Arquitetura e Urbanismo e Patrimônio Cultural Edificado. Escreve para o Vida & Arte desde 2012.

O rapaz de Floriano

Tipo Crônica

À memória de Antonio José Soares Brandão

Não adianta negar: recolhidos em nossos lares, vivemos como se lá fora houvesse uma serpente venenosíssima pronta para nos dar a picada mortal. Paranoia instalada, se os outros já eram a encarnação do inferno sartreano, agora é que nos metem mais medo e nos infligem maior insegurança quando somos obrigados a abandonar o nosso refúgio para resolver presencialmente o inadiável nesse confinamento de mentirinha (que não lock, só deixa down). Nosso colega passageiro ou o motorista do táxi são formas humanas que o vírus assumiu para nos infectar. A vida passou a ser o que se vê nas telas das TVs, dos telefones e dos computadores. Turmas de alunos que são apenas ícones, camaradas há muito sumidos, parentes distantes, neste viver à míngua.

E as mudanças têm sido para pior. As redes sociais, que transbordavam de ódio, agora expressam desesperança, transformando-se em obituário. Raro é o dia em que não topamos com a infausta notícia da partida de alguém próximo. Ontem peguei-me cantando um samba: “O que será o amanhã, como vai ser o meu destino?”. As incertezas, dúvidas e imprecisões desde sempre foram nossas companheiras, mas nunca tão insistentes como agora. O carinha do delivery tasca: “Aí, coroa, chegou o rango”. Isso só açula a condição de idoso, bola da vez na sinuca da praga. Certas palavras adquirem tétricos significados. “Irreversível” é uma delas, frequentemente empregada para dizer que alguém está prestes a entrar na barca de Caronte. Ò flor do Lácio, inculta, bela e fatal...

O correr dos olhos pelas ensanguentadas páginas do jornal me lembra de que minha segunda dose da vacina está 14 dias atrasada. Não há imunizante, não há insumo, ninguém sabe quando virão. O Brasil talvez seja hoje o único país do mundo em que uma peste atua em simbiose com outra, na fina sintonia da morte. Não acertamos as contas com o nosso passado (na verdade, varremo-lo para debaixo do tapete...) e sofremos no presente com aquilo que poderá nos custar o futuro. Não gostaria de ter, como alguém tem, o peso de quase 450 mil defuntos sobre as costas. Contudo, como se sabe, sua alma, sua palma, colhe-se o que se planta, escolhas geram resultados e obrigações. A conta chegou, alguém vai ter que pagá-la e não dá para se esconder atrás da cloroquina, ok?

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Era isso, poeta, colega e amigo. Você, que plantou um pé de sonho nos nossos corações, certamente diria, lendo estas palavras tristes: “É preciso saber que a vida quer um jeito de resistir. É preciso saber que agora a aurora não pode esperar por vir”. Na última vez em que nos vimos, numa domingueira do Raimundo do Queijo, você me olhou, abriu aquele sorriso largo e me falou: “Meu cronista!”. Ganhei a semana que se iniciava ali, naquele momento. “Que honra!”, pensei, “O rapaz de Floriano (como eu o chamava) gosta do que escrevo!”. Franzino, bigode fino, tez morena e cabelo num penteado Chanel, sua figura surge à minha frente. Só me resta a paródia: já riscaram pelos muros raiva, dor e esperança, mas eu vou riscar na vida o teu nome com uma crônica.

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