Foto de Romeu Duarte
clique para exibir bio do colunista

Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, é especialista nas áreas de História da Arquitetura e do Urbanismo, Teoria de Arquitetura e Urbanismo, Projeto de Arquitetura e Urbanismo e Patrimônio Cultural Edificado. Escreve para o Vida & Arte desde 2012.

Pátria amada

Tipo Crônica

Dono de uma coleção de cadernos Avante (24 páginas. Aliás, onde foi parar?), morador da Base Aérea de Fortaleza e educado no Colégio Cearense Sagrado Coração, lógico que o hino nacional brasileiro entrou cedo na minha vida. Com letra de Osório Duque Estrada e música de Francisco Manuel da Silva, o tal cântico verde e amarelo sempre me pareceu longo e gongórico demais, muito aquém dos hinos da Independência e da Bandeira, este, para mim, o mais belo que existe. A noção de civismo me foi incutida pela seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo do México, quando fomos tricampeões. Hoje, a Canarinho joga e dou por perdido, nem aí. Na José Avelino, uma montanha de mantos do escrete nacional mofa na calçada. "Quem quer essa camisa réa cafona? Nã...".

O pensamento voa e vai bater na Avenida Duque de Caxias, nos anos de 1960, onde se dava a parada do 7 de Setembro. Levado pelos meus pais, assisti a muito samango marchar sob o sol quente do bêerreobró. O palanque com as autoridades, os jatos dando rasante sobre as nossas cabeças, Narcélio e Paulo Limaverde fazendo a transmissão do evento pelo rádio, tudo isso em plena ditadura militar. Além das forças armadas, alguns colégios também desfilavam. Acabada a festa, era enrolar a bandeirinha e pegar o Aerolândia na Praça do Coração de Jesus. Na volta à casa, sempre me pegava pensando no propósito de tudo aquilo. Glorificação da pátria ou demonstração de poder? Era muita coisa para a minha cachola de menino. Depois, "Perdidos no espaço" e cama...

Das lembranças daquele tempo escuro, de triste memória, uma certeza, ou melhor, uma ilusão: o Brasil era de todos, orgulhávamo-nos de ser brasileiros. Ainda hoje me pego refletindo sobre o resultado da "grande feijoada" que o Glauber Rocha queria oferecer aos milicos, na panela da qual os problemas brazucas seriam discutidos entre uma caipirinha e outra, o que jamais se deu. Acho que se perdeu uma grande oportunidade de se estabelecer um diálogo pela via do amor à nação. Ao final do ágape, prisões, indigestão, ressaca ou um acordo? Assim, minha geração cresceu dividida e alienada, enquanto a turma da farda foi e continua sendo cevada no ideário da Guerra Fria, vendo comunismo até no vermelho do sinal. O analfabetismo é o pai todos os males...

Amanhã Pindorama completará 199 anos de sua libertação de Portugal, faltando apenas mais um para inteirar o bicentenário. Se o episódio relativo à emancipação do Brasil em relação à terrinha é um dos momentos mais lisérgicos da nossa história, o que hoje amargamos não lhe fica atrás. No trono, um sujeito que se acha o dono do país, irresponsável, patético e perverso, zonzo de tanta porrada e amedrontado pela perspectiva de ser preso com os filhos, tenta intimidar os dois demais poderes com bravatas fajutas. Seus fiéis zumbis, minguando cada vez mais, sequestraram os símbolos pátrios como se este chão fosse só deles. No outro corner, o povo, faminto, desempregado, liso, cansado, além dos arrependidos. Salve, salve, lindo pendão da esperança.

Essa notícia foi relevante pra você?
Logo O POVO Mais