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Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, é especialista nas áreas de História da Arquitetura e do Urbanismo, Teoria de Arquitetura e Urbanismo, Projeto de Arquitetura e Urbanismo e Patrimônio Cultural Edificado. Escreve para o Vida & Arte desde 2012.

O toque da besta-fera

Tipo Crônica

Acho que eu e o meu amigo Lúcio Brasileiro somos as únicas pessoas deste mundo que odeiam telefone. Como ele bem diz, o tal aparelho só presta para dar notícia ruim. Aírton Monte, o eterno ocupante deste espaço, criou um nome perfeito para o paulificante equipamento: aporrinhola. Todavia, como se sabe, a vida em sociedade e a necessidade de comunicação (às vezes mais uma doença do que uma precisão) justificam o uso do invento de Graham Bell. Hoje, o telefone serve até para fazer e receber chamadas. Aliás, ninguém mais liga ou atende, o que parece ser um item básico da nova etiqueta social. Depois do zap-zap, tornou-se uma indignidade, uma importunação terrível, ligar para alguém. Para preservar minha sanidade mental, não uso o aplicativo do capeta.

Como escreveu Rubem Braga em célebre crônica, sou do tempo em que as geladeiras eram brancas e os telefones eram pretos. Pesadíssimos, feitos de baquelite, viviam pendurados nas paredes, daí seu apelido de "macaco negro". Como eram poucos na cidade, seus quatro números eram uma combinação dos algarismos 0, 1 e 2. As famílias que os possuíam eram vistas com inveja e admiração e sofriam com os insistentes pedidos dos vizinhos para que se ligasse para a polícia, o hospital ou o necrotério em busca de um parente desaparecido. Quando desceu da parede e aboletou-se sobre um móvel, tornou-se um objeto ainda mais distinto e sedutor. "Estava dedilhando o piano quando o telefone, em cima, tocou", sussurrava o cafajeste à moçoila indefesa.

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O que seria da música popular brasileira sem a engenhoca? Desde "Pelo telefone", o primeiro samba gravado (1917), de autoria de Donga, até o mais recente hit breganejo, são inúmeras as referências ao chato gadget. Na história deste, um longo capítulo é reservado ao orelhão. Antes presente em toda esquina, operando a ficha e a cartão, era o amigo certo das horas incertas. Havia um cara que ligava do artefato, situado à frente do bar, para a amante, de forma a não deixar pistas. Um dia, vendo-o destroçado, não pôde conter as lágrimas: "Monstros! Vandalizaram o meu leito de amor telefônico!". Os que ainda resistem por aí amargam cruel desprezo. Não há nada mais triste que um orelhão. "Tudo se acaba, até a arte de dar um telefonema", chora outro chapa...

Vive-se a era dessa algema eletrônica chamada telefone celular. Em suas várias versões, regula rigorosamente nosso cotidiano, impondo hábitos e alterando comportamentos. A vida passando ao lado e as telas nos oferecendo uma imitação dela. Trocamos a realidade pela conversa fiada sem fio. E quanto ao aborrecido toque da besta-fera? Do tilintante trimmm inicial, passamos aos pedaços de sinfonias, aos comerciais dos fabricantes, aos hinos de clube de futebol e aos sons de orgasmos de ornitorrincos. Robôs mil, usando um gerundismo com sotaque de paulista caipira, querendo nos vender gato por lebre a toda hora. Não, Noel, não foi o cinema falado o grande culpado. "Esse negócio de "alô, boy", "alô, Johnny", só pode ser conversa de telefone", morou?

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