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A vida e o seu tropel
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Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, é especialista nas áreas de História da Arquitetura e do Urbanismo, Teoria de Arquitetura e Urbanismo, Projeto de Arquitetura e Urbanismo e Patrimônio Cultural Edificado. Escreve para o Vida & Arte desde 2012.

A vida e o seu tropel

Romeu Duarte: "Atônito, analógico e cada vez mais paranoico, sinto-me como a próxima vítima desse complô cibernético"
Tipo Crônica
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Foto de apoio ilustrativo (Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil)
Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil Foto de apoio ilustrativo

Tenho refletido muito sobre as transformações do cotidiano. A vida tem se alterado numa velocidade estonteante e, neste tropel, também os modos de se lidar com ela. O que até bem pouco tempo era algo de uso corriqueiro, banal, até fundamental, já faz parte do rol de detritos depositados na lata de lixo da existência. Incrível como é célere essa substituição de coisas e procedimentos considerados superados por outros novos e assim por diante. O celular recém-adquirido, mega-super-hiper potente, já, já será trocado por outro mais danado, tal como estabelece a cruel lei capitalista da obsolescência programada, a qual se estende até às relações humanas. Novas formas de convívio social, novos costumes, novas modas entram e saem do radar a todo instante. E agora, José?

Todo mundo hoje sabe cozinhar e é expert em vinhos. O macharal, antes fora da cozinha e adepto da cachaça, hoje, de dólmã, prepara e troca receitas finas e fala de tons de frutas cítricas e notas de tabaco para colocar no Instagram. De outra parte, ninguém quer saber mais de atender telefone. Sofro com o meu peba para me comunicar com alguém, já que o zap solicito apenas à corriola listada e os muitos golpes telefônicos impedem o contato. Como a sensibilidade hoje é muito mais imagética do que literária, ninguém lê mais e tome o adjetivo "textão" para todo e qualquer escrito que ultrapasse dez linhas. Se há o tal streaming, por que ir ao cinema, cujo ingresso é caro e suas comidinhas idem? Há quem ainda redija cartas, use cartão de apresentação, telefone fixo? Escreva à mão?

Atônito, analógico e cada vez mais paranoico, sinto-me como a próxima vítima desse complô cibernético. A informática e a sua filha mais nova, a impiedosa IA, já assassinaram muitas coisas e agora se organizam para dar conta do gênero humano. Nada contra um sistema digital realizar tarefas repetitivas e por isso cansativas para liberar o homem de tais chatos afazeres. O problema reside no fato de estarmos sendo gradativamente substituídos por máquinas que tomam o nosso trabalho e o bendito sistema não ter qualquer responsabilidade quanto ao nosso reposicionamento no mercado e na vida. Somos tão somente eliminados por esse algoritmo ideal do capitalismo, que só deseja lucro máximo e zero pagamento. Isso se dá desde os luditas do século XIX aos trocadores de ônibus.

E o romance em tempos de aplicativo, por quais mudanças tem passado? Lembro do Gil dizendo em sua canção "Lunik 9" "poetas, seresteiros, namorados, correi; É chegada a hora de escrever e cantar; Talvez as derradeiras noites de luar", quiçá temeroso de que o satélite soviético atrapalhasse as escaramuças dos amantes. Também foi o mesmo Gil que compôs "Parabolicamará": "Antes o mundo era pequeno; Porque a Terra era grande; Hoje o mundo é muito grande; Porque a Terra é pequena; Do tamanho da antena". Não, não sou saudosista nem refém do passado, apenas alguém preocupado com o veloz andamento do tempo, que não espera por ninguém, e sabedor, sem qualquer deslumbre, de que a ciência e a tecnologia não são neutras nem redentoras. Apenas observo...

 

Foto do Romeu Duarte

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