Cineasta e escritor
Cineasta e escritor
"Odio il Capodanno" foi o título de um artigo atribuído a Antonio Gramsci, publicado em 1916 no jornal socialista italiano Avanti!, quando a Itália entrava na Primeira Guerra Mundial, um matadouro que demoliu a própria noção burguesa de "civilização". O texto não é só um panfleto contra a guerra: acusa o "Ano Novo" como rito de fachada, um simulacro das antigas festas pagãs, revivido para mascarar a continuidade da ordem, aplacar a má consciência e manter os subalternizados crentes de que algo vai mudar.
O artigo abre- com uma provocação: "Toda manhã, ao acordar sob o manto do céu, sinto que, para mim, é o primeiro dia do ano". E explica por que detesta os anos novos a prazo fixo: eles transformam a vida e o espírito em empresa, com prestação de contas, balanço e previsões para a nova gestão. Com isso, perde-se o sentido de continuidade; passa-se a crer que entre um ano e outro existe ruptura e nasce uma nova história. "É um equívoco geral", escreve ele, "que afeta todas as datas".
Eu não tenho a mesma lucidez, talvez, por isso, envio e recebo bons votos, emojis e musiquinhas de Ano Novo. Viva! Salve! Aleluia etc. Mas chega o 1º de janeiro e, ainda de ressaca, abro a janela. O vento traz um cheiro de coisa ruim. Longe, seguem a morte e a fome: na Palestina e em outras terras devastadas. Países ricos em recursos naturais, condenados à miséria, atacados e saqueados pelos países hegemônicos; o Mediterrâneo virando cemitério de migrantes diante de uma Europa que rasga a fria máscara das luzes. Os EUA, sendo o que sempre foram: saqueadores.
Talvez o cheiro não venha de tão longe, venha daqui mesmo: jovens negros mortos nas periferias, indígenas e lideranças rurais assassinados, feminicídios e crimes contra crianças; florestas queimadas, rios contaminados por metais pesados; o agronegócio envenenando o mundo e matando a terra, enquanto crescem os neofascismos e a voracidade do neoliberalismo que, depois de tudo devorar, acabará por se autodevorar.
Que o ano só se faça novo pela consciência e pela luta. Não basta o exercício da ilusão e do autoengano; é preciso ação. Assim, que cada dia seja um dia novo, em permanente transformação e busca de justiça.
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