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"Eu odeio o ano novo"
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Cineasta e escritor

"Eu odeio o ano novo"

Chega o esperado 1º de janeiro e, ainda de ressaca, abro a janela. O vento traz um cheiro de coisa ruim. Longe, seguem a morte e a fome: na Palestina e em outras terras devastadas
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Vista aérea da estátua do Cristo Redentor e dos fogos de artifício lançados da praia de Copacabana durante a celebração do Ano Novo no Rio de Janeiro, em 1º de janeiro de 2025.
O Rio de Janeiro recebeu, em 30 de dezembro de 2025, o título de maior celebração de Ano Novo do mundo pelo Guinness World Records, um reconhecimento de sua famosa e gigantesca festa com shows de música ao vivo à beira-mar. (Foto: MAURO PIMENTEL / AFP)
Foto: MAURO PIMENTEL / AFP Vista aérea da estátua do Cristo Redentor e dos fogos de artifício lançados da praia de Copacabana durante a celebração do Ano Novo no Rio de Janeiro, em 1º de janeiro de 2025. O Rio de Janeiro recebeu, em 30 de dezembro de 2025, o título de maior celebração de Ano Novo do mundo pelo Guinness World Records, um reconhecimento de sua famosa e gigantesca festa com shows de música ao vivo à beira-mar.

"Odio il Capodanno" foi o título de um artigo atribuído a Antonio Gramsci, publicado em 1916 no jornal socialista italiano Avanti!, quando a Itália entrava na Primeira Guerra Mundial, um matadouro que demoliu a própria noção burguesa de "civilização". O texto não é só um panfleto contra a guerra: acusa o "Ano Novo" como rito de fachada, um simulacro das antigas festas pagãs, revivido para mascarar a continuidade da ordem, aplacar a má consciência e manter os subalternizados crentes de que algo vai mudar.

O artigo abre- com uma provocação: "Toda manhã, ao acordar sob o manto do céu, sinto que, para mim, é o primeiro dia do ano". E explica por que detesta os anos novos a prazo fixo: eles transformam a vida e o espírito em empresa, com prestação de contas, balanço e previsões para a nova gestão. Com isso, perde-se o sentido de continuidade; passa-se a crer que entre um ano e outro existe ruptura e nasce uma nova história. "É um equívoco geral", escreve ele, "que afeta todas as datas".

Eu não tenho a mesma lucidez, talvez, por isso, envio e recebo bons votos, emojis e musiquinhas de Ano Novo. Viva! Salve! Aleluia etc. Mas chega o 1º de janeiro e, ainda de ressaca, abro a janela. O vento traz um cheiro de coisa ruim. Longe, seguem a morte e a fome: na Palestina e em outras terras devastadas. Países ricos em recursos naturais, condenados à miséria, atacados e saqueados pelos países hegemônicos; o Mediterrâneo virando cemitério de migrantes diante de uma Europa que rasga a fria máscara das luzes. Os EUA, sendo o que sempre foram: saqueadores.

Talvez o cheiro não venha de tão longe, venha daqui mesmo: jovens negros mortos nas periferias, indígenas e lideranças rurais assassinados, feminicídios e crimes contra crianças; florestas queimadas, rios contaminados por metais pesados; o agronegócio envenenando o mundo e matando a terra, enquanto crescem os neofascismos e a voracidade do neoliberalismo que, depois de tudo devorar, acabará por se autodevorar.

Que o ano só se faça novo pela consciência e pela luta. Não basta o exercício da ilusão e do autoengano; é preciso ação. Assim, que cada dia seja um dia novo, em permanente transformação e busca de justiça.

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