Rubens Rodrigues é jornalista, editor de Cidades do O POVO. Nesta coluna, trata de assuntos ligados a raça, diversidade e direitos humanos. MBA em Jornalismo Digital e pós-graduando em Direitos Humanos, Responsabilidade Social e Cidadania Global pela PUCRS. Está entre o TOP 50 +Admirados Jornalistas Negros e Negras da Imprensa Brasileira.
Foto: Reprodução/Acervo pessoal
Diogo Augusto é o primeiro médico quilombola do estado do Ceará
O jovem Diogo Augusto Araújo, de 24 anos, divide em uma conquista os sentimentos de felicidade e indignação: ele é o primeiro remanescente de quilombo a se formar em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC). "É revoltante que tantos familiares meus e amigos não tenham essa mesma oportunidade porque precisam trabalhar desde cedo e não têm tempo para estudar", avalia.
Diogo nasceu na comunidade quilombola da Serra da Rajada, zona rural de Caucaia. Filho de uma professora de escola quilombola e um agricultor quilombola analfabeto, ele viu no estudo a oportunidade de romper amarras sociais.
Na infância, estudou em uma escola filantrópica. Depois, passou pela rede pública estadual e até pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), onde participou de olimpíadas científicas, pesquisas e do Núcleos de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas.
"Então, incentivado por alguns professores e familiares, surgiu a possibilidade de fazer Medicina, tendo em vista os bons resultados acadêmicos que vinha obtendo", destacou. A Medicina, conta o jovem, não era um sonho, mas "uma ferramenta de ascensão social". Em entrevista à coluna, Diogo fala sobre a trajetória nos estudos e a importância da conquista para toda uma comunidade.
Jovem de 24 anos é o primeiro quilombola a se formar em Medicina pela UFC
Crédito: Arquivo pessoal
O POVO - Como começa a sua trajetória e de onde você parte?
Diogo Augusto - Nasci na comunidade quilombola da Serra da Rajada, localizada na zona rural de Caucaia. Nossa cidade é o município com o maior número de quilombolas no Estado. Filho da Sandra, primeira professora na nossa escola quilombola e do “Zé Augusto”, agricultor quilombola analfabeto. Desde cedo minha mãe incentivou a mim e meus dois irmãos, um pouco à revelia da vontade de meu pai, que queria que nós trabalhássemos. Quando eu tinha apenas 4 anos e 6 meses, meu pai faleceu de forma súbita, tendo uma parada cardiorrespiratória aos 42 anos de idade. Infelizmente é comum a ausência de assistência à saúde da população quilombola. Pouco tempo depois do falecimento, quando eu tinha 5 anos, nos mudamos eu, minha mãe e meus dois irmãos para o Parque Potira, (bairro popular em Caucaia onde moro até hoje) para morar na casa do meu avô. Como diz o samba-enredo da Portela, “Nasci quilombo, cresci favela”. Apesar de ter saído cedo do quilombo, continuei indo lá para visitar minha família paterna e especialmente meu avô, nosso ancestral do quilombo, que faleceu aos 101 anos em 2024.
Apesar das dificuldades de ser uma mãe solo com três filhos, a “tia Sandra”, como os alunos a chamam, nunca nos deixou faltar nada e foi uma grande professora para nós. Minha irmã se graduou em Letras-Espanhol pela Uece, meu irmão é graduado em Direito e cursa o quarto semestre de Medicina, sendo eles também grandes inspirações no estudo. Aos 7 anos, fui estudar na Fundação Bradesco, uma escola filantrópica do Banco Bradesco destinada a estudantes de baixa renda. Lá, me destacava por tirar boas notas e tinha como grande meta conseguir um emprego como bancário, que por vezes o banco ofertava para alunos com grande destaque. Porém, as possibilidades foram se expandindo, fui estudar no IFCE em Caucaia, onde pude fazer olimpíadas científicas, pesquisas e participar do núcleo de estudos afro-brasileiros e indígenas. Então, incentivado por alguns professores e familiares, surgiu a possibilidade de fazer Medicina, tendo em vista os bons resultados acadêmicos que vinha obtendo. Em 2019, saí do IFCE e fui para a Escola Estadual Cesar Cals, onde concluí o terceiro ano do ensino médio e me dediquei ao Enem, obtendo a aprovação para ingressar em 2020.1 no curso de Medicina da UFC- Fortaleza.
O POVO - Como esse contexto social impactou na sua jornada acadêmica e na sua escolha profissional?
Diogo Augusto - Sempre me indignei muito com a injustiça social que me atravessava e atravessa tantos jovens como eu. Diante disso, busquei reafirmar minha identidade enquanto quilombola, mas é um processo difícil, pois as pessoas deslegitimam a nossa identidade. Até pessoas próximas já chegaram a zombar, ouvi falar que eu “era bonito pra ser quilombola”, por ter traços considerados mais “finos”. Diante dessa indignação, me engajei no movimento estudantil, no grêmio estudantil do IFCE-Caucaia e depois no Centro Acadêmico XII de Maio, do curso de Medicina, instituições que me fizeram aprender muito e que, sem elas, possivelmente não estaria onde estou hoje.
A possibilidade de fazer medicina foi um horizonte ampliado apenas quase no fim do ensino médio, afinal, nós “somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter”. No entanto, com muito incentivo, consegui ser aprovado. A verdade é que, pra mim, a Medicina nunca foi um grande sonho ou uma “missão humanitária”. Mas era, sim, uma grande ferramenta para ajudar a população quilombola e, claro, de ascensão social para a minha família.
Ao longo dessa jornada de seis anos de graduação, pensei em desistir algumas vezes, me senti mal em alguns momentos por estar em um curso branco e elitizado. Não conseguia conceber que tinham pessoas ali que nunca pegaram um ônibus, quando eu andava de ônibus sozinho desde os 11 anos de idade para ir à escola. Mas persisti, encontrei grandes aliados, professores e amigos no caminho, buscando uma prática médica que fizesse sentido para o povo, aliando os conhecimentos tradicionais, aprendendo com as rezadeiras, pesquisando as plantas medicinais e me apaixonando especialmente pela saúde mental e saúde coletiva, áreas que almejo seguir. Hoje, sou membro do Grupo de Trabalho Graça Epifanio de saúde quilombola, do Ministério da Saúde, lutando para a efetivação da Política Nacional de Saúde Quilombola. Assim, vou levando a força da minha ancestralidade para a minha prática profissional e resistindo à tentativa de epistemicídio que, por vezes, sofremos dentro da Academia.
O POVO - O que essa conquista significa para você?
Diogo Augusto - Essa conquista significa a coroação de anos de estudo e dedicação, minha e da minha família. É um grande alívio. No meio do percurso, tive problemas de saúde física e mental, muitas geradas também pelo racismo institucional que sofremos na universidade, pela pandemia que enfrentamos. Confesso que, ao longo da vida, tive dificuldades de comemorar conquistas, porque muitas vezes pensava “estou apenas cumprindo com minha obrigação” Hoje estou comemorando imensamente, pois sei que não é uma conquista individual, mas sim coletiva.
O POVO - E a que você atribui essa conquista?
Diogo Augusto - Eu me esforcei muito pra tudo isso. No terceiro ano do ensino médio, eu conciliava cursinho no Lourenço Filho, onde tinha bolsa de estudos e o terceiro ano na escola Cesar Cals. No início eu saia cedo de trem, andava mais de 2km para ir da estação para a escola, pois não tinha carteirinha de estudante e a passagem de ônibus era cara. Andei a faculdade inteira de ônibus e de Bicicletar, me alimentando no restaurante universitário, indo atrás de bolsas de pesquisa e extensão. Existe um mérito individual, mas não existe meritocracia. Não deveria ter sido tão difícil. Portanto, essa conquista é, sobretudo, fruto da minha família, dos meus amigos. Do movimento estudantil, do movimento quilombola. Sem isso, eu não conseguiria ter chegado onde cheguei.
O POVO - Qual a importância das políticas públicas quando falamos em acesso à universidade e também à permanência?
Diogo Augusto - Eu fui uma criança beneficiária do Bolsa Família. As políticas públicas de inclusão me salvaram. Fui bolsista de iniciação científica jr no IFCE. Entrei como cotista negro na Universidade. Fui beneficiário da política de assistência estudantil, fui bolsista do Programa de Educação Tutorial, de iniciação científica, do programa bolsa permanência para indígenas e quilombolas. O restaurante universitário garantiu segurança alimentar, pois eu não tinha dinheiro pra comprar comida todos os dias na universidade. Tudo isso foi fundamental pra que eu pudesse me tornar médico. Contudo, é preciso também denunciar. Ao longo desses anos, temos sofrido muito com cortes na assistência estudantil. Foram muitos os atrasos de bolsa, especialmente nos anos de 2021 e 2022. São muitos os colegas que precisam conciliar estudo e trabalho, porque a política é subfinanciada. Além disso, historicamente, a Universidade Federal do Ceará pouco tem feito para incluir os quilombolas. Para se ter ideia, o programa bolsa permanência para quilombolas só foi iniciado na UFC em 2022, mas existe desde 2013. Foram muitos os emails e reuniões que tive com a pró-reitoria de assuntos estudantis para que eles pudessem se cadastrar no sistema do MEC para podermos receber as bolsas. Além disso, diversas universidades, como a UFPA, a UFPel e a UFSC possuem há anos processos seletivos próprios para quilombolas, levando em consideração a ancestralidade e especificidade da população.
O POVO - A Faculdade de Medicina da UFC foi fundada em 1948. Faz 77 anos. Por que você acredita que só agora a instituição viu o primeiro remanescente de quilombo a se formar em Medicina?
Diogo Augusto - A população quilombola tem índices gravíssimos no âmbito do acesso à educação e à saúde. Meu falecido pai, agricultor quilombola, é um exemplo disso: era analfabeto e faleceu jovem, aos 42 anos, sem ter ao longo da vida nenhum tipo de assistência formal à saúde. 80% da população quilombola é analfabeta, de acordo com o censo de 2022. O recente boletim epidemiológico da Fiocruz mostra que a taxa de mortalidade por causas evitáveis, é altíssima na população quilombola. Em pleno século XXI, existem crianças quilombolas morrendo de diarreia. As taxas de suicídio, como demonstram a pesquisa Conflitos Socioambientais, Suicídio e Quilombos, que faço parte como representante da CONAQ, mostram que a taxa de suicídio em quilombos é alta, especialmente naqueles que sofrem com conflitos territorial. Nossa companheira pioneira no debate da Saúde Quilombola, Graça Epifanio, faleceu precocemente sem assistência médica adequada. Isso não é acaso. É um projeto de genocídio que ocorre desde o início da formação desse país e que perpassa por nos excluir dos espaços de formação educacional.
A verdade é que existe uma espécie de aristocracia médica, que é branca, elitista e formada por famílias tradicionais. Não à toa, grande parte dos médicos são contra as cotas na residência médica e contra as políticas de inclusão. Somente em 2024 a Universidade Federal do Ceará começou a reservar vagas para quilombolas, por força da lei de cotas de 2023, que finalmente incluiu a população quilombola nas reservas de vagas. Eu mesmo, apesar de quilombola, adentrei nas cotas em 2020 como pessoa negra e não como quilombola, pois à época não existia essa reserva. É uma felicidade eu ser o primeiro quilombola médico no Ceará? Sim, é. Porém, é sobretudo uma indignação. É revoltante que tantos familiares meus, amigos, não tenham essa mesma oportunidade, porque precisam trabalhar desde cedo e não têm tempo para estudar. É revoltante que tenhamos jovens quilombolas sem perspectivas profissionais e que acabam sendo levados ao suicídio, como ocorreu em comunidades em Salitre, no interior do Estado. Como diz Emicida: “Eles num guenta te ver livre, imagina te ver rei”.
Nós quilombolas muitas vezes não temos nem o nosso direito fundamental à terra, que é garantido pela constituição, imagina ver quilombola médico? Somos pouquíssimos médicos quilombolas no país, no Ceará apenas eu. Isso é uma violência tremenda. Apesar disso, vamos lutando e seguindo em frente, para que muitos outros possam adentrar a universidade.
Finalizo com a força do nosso ancestral e intelectual nego bispo: "Fogo!… Queimaram Palmares, Nasceu Canudos. Fogo!… Queimaram Canudos, Nasceu Caldeirões. Fogo!… Queimaram Caldeirões, Nasceu Pau de Colher. Fogo!… Queimaram Pau de Colher… E nasceram, e nasceram tantas outras comunidades que os vão cansar se continuarem queimando. Porque mesmo que queimem a escrita, Não queimarão a oralidade. Mesmo que queimem os símbolos, Não queimarão os significados. Mesmo queimando o nosso povo Não queimarão a ancestralidade"
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