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O banho de mangueira e a nossa desumanidade
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Psicóloga e psicanalista

O banho de mangueira e a nossa desumanidade

Tudo se passava enquanto estava parada em um sinal vermelho em um dos cruzamentos de um bairro nobre da nossa cidade. O banho de mangueira acontecia em um depósito de lixo de um condomínio de luxo
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Lançado em 1995,
Foto: Divulgação Lançado em 1995, "Menino Maluquinho - O filme" teve o ator Samuel Costa no papel do Maluquinho

O garotinho, que não deve ter mais de três anos, surgiu alegre, pelado e molhado do banho de mangueira recém tomado. Caminhando ao redor, vejo o que certamente é sua mãe, a torcer um calçãozinho de menino e o estender em um tronco de árvore na calçada. Vejo a mangueira com a água escorrendo, um funcionário e eis que surge um outro garoto, um pouco maior do que o primeiro, também pelado e molhado do banho.

A cena acima poderia ser a narrativa de uma sequência na qual vislumbramos uma infância com todas as suas ânsias, porque infância são ânisas! Naquele instante, lembrei do Ziraldo e seu "Menino Maluquinho." Eram duas crianças felizes curtindo as férias e tomando banho de mangueira. Mas não.

Tudo se passou enquanto estava parada em um sinal vermelho em um dos cruzamentos de um bairro nobre da nossa cidade. O banho de mangueira estava acontecendo em um depósito de lixo de um condomínio de luxo onde o funcionário, após retirar os sacos (de lixo), usava a mangueira para lavar o local.

As duas crianças tomavam o banho no mesmo local onde os sacos de lixo do condomínio ficavam depositados, aguardando serem colocados na calçada no dia da coleta.

O sinal abriu e segui para o meu destino, mas a cena fez-me lembrar de dois trechos que Valter Hugo Mãe cita em seu livro "O filho de mil homens" que fui reler depois de assistir ao filme estrelado por Rodrigo Santoro no papel de Crisóstomo. O primeiro, de Charlie Chaplin em "O Grande Ditador": "o modo de vida pode ser livre e belo, mas perdemos o caminho". O segundo, de José de Almada Negreiros em "A Invenção do Dia Claro": "quando eu nasci, as frases que hão de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade".

Dedico este artigo ao inesquecível Wolfgang e seu olhar de criança, um pastor alemão que adorava brincar com a água escorrendo da mangueira!

Foto do Sabrina Matos

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