Logo O POVO+
Proteção de crianças deve ser prioridade nas ações em áreas de risco
Comentar
Foto de Sara Oliveira
clique para exibir bio do colunista

Sara Oliveira é repórter especial de Cidades do O POVO há 10 anos, com mais de 15 anos de experiência na editoria de Cotidiano/Cidades nos cargos de repórter e editora. Pós-graduada em assessoria de comunicação, estudante de Pedagogia e interessadíssima em temas relacionados a políticas públicas. Uma mulher de 40 anos que teve a experiência de viver em Londres por dois anos, se tornou mãe do Léo (8) e do Cadu (5), e segue apaixonada por praia e pelas descobertas da vida materna e feminina em meio à tanta desigualdade

Sara Oliveira comportamento

Proteção de crianças deve ser prioridade nas ações em áreas de risco

Comentar

Sempre que perguntam qual cobertura jornalística mais me marcou, a resposta é a mesma e considera quase duas décadas de trabalho na editoria de Cidades: ver crianças em meio à lama, ao lado de porcos, porque a chuva acabou misturando chiqueiro e residência. A cena, reportada em meados de 2010, mas que facilmente pode se repetir em 2026, exibe o tamanho do desafio de proteger quem mais precisa.

Foi no bairro Lagamar, em Fortaleza, em um fim de tarde de janeiro. De botas até quase o joelho, capa de chuva, bloquinho e caneta, entro em na rua ao lado de uma lagoa. Nas casas, completamente tomadas pela água, não existia mais diferença entre cômodos; as roupas e os objetos boiavam perdidos, e as pessoas, também molhadas, não sabiam o que fazer.

Todos os anos, quando as chuvas começam, acima ou abaixo da média histórica, as memórias são reavivadas, nas lembranças que trago e nas reportagens sobre a vida das pessoas em áreas de risco. São histórias de quem perdeu o pouco que tinha. E no meio dos relatos e das fotos que mostram a dura realidade, sempre há crianças, muitas crianças.

Em quase todas as matérias sobre locais com registro de enchentes e alagamentos, mulheres aparecem falando sobre a dificuldade de manter os filhos a salvo, estão em fotos carregando bebês de colo, e a narrativa do texto sempre descreve sujeira, descaso, doença e medo.

Uma das Metas Nacionais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), é de que seja garantido, a todos, acesso à moradia digna, adequada e a preço acessível. Destaca ainda o acesso a serviços básicos e a necessidade de urbanizar assentamentos precários, com atenção especial para grupos em situação de vulnerabilidade.

No Brasil, dados de 2023 mostraram que 28,8 milhões de crianças e adolescentes vivem na pobreza e representam 55,9% da população de 0 a 17 anos do País. A pobreza, a falta de direitos, impacta diretamente na oferta de serviços públicos. Condições de moradia ruins são causa de diferentes problemas sociais e de saúde, que repercutem na conjuntura econômica atual e futura.

Crianças que não têm segurança em suas casas, que perdem o que possuem, que estão expostas a doenças e água com dejetos, não têm o mínimo necessário para estudar, descansar, brincar e crescer. Direitos que são garantidos por diferentes dispositivos nacionais e internacionais.

A quadra chuvosa no Ceará começou e, mesmo ainda no início, já é possível ver os impactos da falta de políticas públicas eficazes que evitem cenas como as relatadas em tantas matérias. As ações de prevenção de desastres e de contingência para o período precisam incluir, além da limpeza de recursos hídricos e monitoramento da Defesa Civil, a atuação da assistência social, priorizando a identificação de situações de risco e protegendo crianças e adolescentes. Como é obrigação da família, da sociedade e do poder público.

 

Foto do Sara Oliveira

A mulher na sociedade, no mercado de trabalho, na política e nas lutas feministas. Isso e muito mais. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.

O que você achou desse conteúdo?