Sérgio Redes
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O ex-jogador Sérgio Redes, ou

Crônica

Marciano, Augusto Pontes e a sinuca

Em crônica, colunista rememora um duelo lendário entre o ex-atacante Marciano e o filósofo e boêmio Augusto Pontes na sinuca

Vez por outra recordo o Marciano. Grande jogador de sinuca, parceiro e centroavante artilheiro da melhor qualidade. Posto matérias e ele presente, com suas opiniões. A primeira vez que o vi foi em frente ao São Luiz. Olho para o lado. Um cabeludo com uma calça boca de sino. A comunicação foi instantânea. "Sou o Marciano! Fui contratado pelo Fortaleza".

De lá para cá são 49 anos. Algumas vezes estivemos perto, outras estivemos longe, mas me apraz escrever sobre um centroavante que jogou em diversos grandes clubes brasileiros.

No Fortaleza, eu ficava impressionado com a sua movimentação na busca de espaços vazios. Não era de driblar, mas quando saía da área para vir buscar o jogo, sempre tocava na bola de primeira, ou para tabelar, ou para lançar os pontas e correr para a área.

Seu passe livre lhe permitia, no final de um contrato, tomar o destino que quisesse. Como o que dá para rir dá para chorar, se o clube não tivesse condições de renovar seu contrato, os dirigentes o tiravam do time alegando que não iriam valorizar uma peça que não era deles.

O passe livre o tornou um andarilho, mas se encantou por Fortaleza. Aqui casou e constituiu família e, quando parou de jogar, seu cunhado Ataliba lhe passou a administração do Citron. Ponto de encontro de publicitários, jornalistas, compositores, cantores e jogadores de futebol. Lá no fundo, uma mesa de sinuca.

Augusto Pontes disputava uma partida com Fábio (Diabo Louro). As bolas iam caindo e o Augusto de olho na plateia. Fábio abandonou o jogo quando Augusto meteu o que ele chamava de "bola encarante". A jogada consistia em matar a bola sem olhar para a caçapa, e, sim, para a cara do adversário.

Aproximei para pegar o taco sobre a mesa, e uma voz decisiva tomou conta do recinto: "Deixa desafiar esse cabra". O povo recuou uns dois metros da mesa, e o Augusto, meio cabreiro, aceitou o desafio do homem de chapéu preto. Parecia um duelo do Velho Oeste.

Bolas arrumadas, a saída coube ao desafiante. Uma tacada firme e a bola azul no fundo da caçapa. A branca bateu numa parte frouxa da tabela e caiu fora da mesa, perto dos meus pés. Ninguém moveu um dedo para pegá-la. Augusto foi ao ábaco e marcou sete pontos para ele.

O homem reclamou. "Por que sete pontos? O jogo continua!" Augusto não se fez de rogado. Veio em minha direção, acocorou-se e fez sua clássica jogada encarante. A branca parou na porta do banheiro. Virou-se para o adversário e disse: "O jogo continua" A partida acabou ali.

 

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