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Escritora e jornalista com doutorado em estudos da literatura pela Universidade Federal Fluminense. Ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria de Literatura Infantil com o livro

Zabumba-bumba-esquisito

Os funcionários que verificam a temperatura na entrada dos locais públicos não estão mais apontando o termômetro para a testa, agora é para o pulso. Minha filha adolescente riu. É para isso que existe a adolescência, para rir das coisas que os adultos vivenciam sem prestar muita atenção. Ela me disse que leu em algum lugar sobre essa mudança de conduta, da cabeça para o pulso e o motivo seria a suspeita de que o aparelho poderia captar informações importantes de dentro do cérebro das pessoas. Eu também ri.

Imagino que exista outra explicação, mas eu vou ficar com essa imagem: funcionários apontam para as testas dos transeuntes, fingem observar a temperatura, mas na verdade estão enviando os dados para uma central moderna, em um prédio de metal e espelhos, com funcionários vestidos de cinza e branco, sérios, contritos, especialistas em rastrear e armazenar pensamentos.

A princípio as informações importantes seriam senhas de banco, de aplicativos, de sites, números de documentos, perfil do consumo. Isso serve ao nosso sistema, alimenta a ordem macro do universo: o dinheiro. Suficiente para um filme de ficção científica, a confusão seria imensa. Suficiente para um colapso. A essa altura estaríamos mais preparados para isso, o ano de 2020 nos preparou para muitas coisas.

A possibilidade literária deste enredo, em outro gênero, estaria na capacidade do aparelho de capturar os pensamentos em forma de imagens, isso sim, valeria muito. No cinema já existe, foi invenção de Charlie Kaufman no genial "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". A empresa Lacuna Inc. desenvolveu um equipamento que projeta os sonhos em uma tela. A máquina é ligada à cabeça por meio de eletrodos comuns, iguais aos de eletroencefalograma da vida real.

O serviço da Lacuna Inc. é apagar memórias. O aparelho serve para identificar onde estão e precisar, sem erro, o local do apagamento. Vai dar errado com um par de clientes que quebra o bloqueio do sistema, burla as normas, mandam recados em sonhos.

Em um segundo, enquanto soa o bip, o aparelhinho disfarçado de termômetro teria que encontrar uma forma de acessar as cenas do pensamento, catalogar, armazenar e revender. Eis um segundo roteiro de ficção científica em construção, para quem gosta. Não é o meu caso. Eu gosto do absurdo da realidade que não depende de nenhuma máquina para acontecer, que se espalha pelo mundo em outras ondas.

Foi a ideia de acessar pensamentos secretos que deu origem ao meu romance "A cabeça do Santo". O personagem principal, Samuel, não precisou de nada para ouvir as orações de amor das mulheres pedindo a ajuda de Santo Antônio. Nada além de uma cabeça gigantesca, oca e inacabada do casamenteiro, cujo corpo está no alto de um morro.

Escrevi o livro sem ter entrado na cabeça. Estive lá por fora, muitas vezes, mas no ano passado pude fazer o mesmo que Samuel: entrar, sentar, observar o absurdo de ocupar o lugar metafórico de um cérebro. É tudo mistério: a fé, o pensamento, o cérebro, os sonhos, o termômetro na porta do shopping. Apontar para o pulso é inofensivo, isso sim. De lá só se registra o eco do coração trabalhando, como quem diz "não tem jeito".

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