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Escritora e jornalista com doutorado em estudos da literatura pela Universidade Federal Fluminense. Ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria de Literatura Infantil com o livro

Luz e sombra

Tipo Crônica

A escritora polonesa Olga Tokarczuk tem formação em Psicologia e exerceu a profissão por muitos anos a partir das ideias de Carl Gustav Jung. “Sou neurótica demais para ser terapeuta”, ela disse, ao explicar porque abandonou o trabalho como psicóloga e decidiu levar as questões sobre a vida e o mundo para a escrita ficcional. Sendo a literatura um terreno fértil para perguntas e buscas, ela encontrou um lugar confortável para pensar sobre o desconforto de viver, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e conquistou leitores dispostos a prestar muita atenção em tudo o que ela escreve.

Depois de lançar Sobre os ossos dos mortos, a editora Todavia acaba de publicar no Brasil A alma perdida, um livro para crianças escrito por Olga. O texto preserva a luz junguiana na perspectiva de contar uma história que ilumina a sombra de um homem, o personagem, como metáfora do grande engano coletivo que nos afoga. Este homem funciona. E só isso. Vive a partir das demandas do próprio corpo, trabalha, dirige, joga tênis, viaja muito. Um dia, em um quarto de hotel, sente falta de ar, não sabe o lugar onde está e perde a voz. Quando esquece o próprio nome – a palavra que coloca uma pessoa na vida das outras – está deflagrado seu estado de absoluta solidão. A médica que o atendeu é precisa no diagnóstico: sua alma está longe do corpo, é preciso aguardar o reencontro.

A economia de palavras é inversamente proporcional aos múltiplos sentidos e janelas que o texto consegue abrir a cada releitura. Além disso, o casamento do texto com as ilustrações de Joana Concejo são um exemplo magistral do que deve ser o encontro entre palavra e imagem no livro para crianças. Sobre páginas amareladas pelo tempo, a busca do personagem vai aparecendo a lápis, em lembranças e espera, pois toda felicidade é memoria e projeto, como disse o poeta Cacaso.

Um dos aspectos de força do texto é a composição sobre a tensão, o constante choque dos extremos, o dual. A oposição entre corpo e alma - e a necessidade deste encontro. A palavra e o silêncio. Do masculino no homem doente e do feminino na médica que indica o caminho de cura. Do mundo adulto e da infância. Da passagem do tempo nos cabelos e nas plantas em contraste com a imobilidade da espera. Do enterro das malas e relógios – objetos volantes – e as rosas e as abóboras – vidas enraizadas. Tudo construído entre polaridades.

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Para além do gesto e da intenção, a literatura infantil cobra uma relação muito segura do autor com as palavras. São poucas, é preciso escolher bem. O trabalho precisar estar concentrado em não perder a literariedade na obrigação equivocada de facilitar. Ou de ensinar. A leitura de A alma perdida evoca um exemplo brasileiro: o Flicts, de Ziraldo. Crianças e adultos entendem perfeitamente o conceito de inadequação, mas cada um a seu modo. Escrever para crianças é tratar da mesma vida e do mesmo mundo por onde transitam os adultos, mas a partir do instrumental dos símbolos. Disso Olga entende muito bem, aprendeu com Jung.

Justo na ocasião do seu lançamento no Brasil, outra mulher ganhou um Prêmio Nobel de Literatura, a poeta americana Louise Glück. Um pequeno trecho de um de seus poemas dialoga perfeitamente com A Alma Perdida e encerra o que é possível dizer sobre ele:
Olhamos para o mundo uma vez, na infância. O resto é memória.

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