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Escritora e jornalista com doutorado em estudos da literatura pela Universidade Federal Fluminense. Ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria de Literatura Infantil com o livro

Abraço de mãe

Tipo Opinião

A foto de uma mãe, idosa e debilitada, abraçada com seu filho, me atingiu fortemente. Eu conhecia pouco o rapaz, só sabia que ele gostava muito da literatura do Valter Hugo Mãe. Em um dos eventos da Bienal do Livro do Ceará, ele apareceu com uma pilha de exemplares para pedir autógrafo, emocionado diante do ídolo. Valter também via as fotos de mãe e filho nas redes sociais, Terezinha e Bruno, e sentia a mesma comoção. Não sabíamos ainda, mas em 2017 já começávamos a formar uma tríade em defesa do amor.

No ano seguinte, o mesmo Bruno de Castro me procurou para saber informações sobre a Especialização em Escrita Literária que eu acabara de criar e coordenar no Centro Universitário Farias Brito. Seria o primeiro curso de pós-graduação em Escrita do Norte e Nordeste, um dos cinco do País. Depois de atendê-lo e informar sobre os preços e datas, ele disse, de pronto, que não seria possível no momento, mas guardava as esperanças para outra hora.

Há uma parte da vida que é pura mágica. Neste campo mora a força da intuição. Sorte de quem tem, às vezes parece uma voz. A minha voz intuitiva disse que o Bruno merecia uma bolsa na Especialização. Passei algumas horas lendo os textos dele, descrevendo a luta com a sua mãe depois de um AVC, a rotina, as lembranças, as belezas desse amor. Era um texto visceral e amoroso. É uma grande sorte na vida ter a oportunidade de amar tanto assim. E ser tão amado por uma mãe.

A bolsa foi possível graças ao professor Tales de Sá Cavalcante, que me permitiu concedê-la, exatamente porque já viu inúmeras pessoas com suas vidas transformadas por uma oportunidade de estudar e mudar tudo ao redor. Quando escrevi para convidar o Bruno, fiquei mais feliz que ele. Porque eu sentia a felicidade dele somada à minha, isso realizava um efeito de multiplicação. E como era de se esperar, ele dedicou o curso inteiro a escrever crônicas sobre Terezinha, sua vida, memórias e infância. Os textos contaram com a orientação preciosa do Prof. Ronaldo Salgado e sua caneta tão afetuosa quanto certeira. O resultado foi um livro produzido em pequena tiragem para apresentação em sala de aula. O símbolo de tudo era uma flor: a margarida.

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No meio do caminho Bruno me mandou uma lista de possíveis títulos para o livro e eu não gostei de nenhum. Antes de dar a resposta negativa, fiquei em silêncio. Ninguém diz um não sem apontar a porta do sim. A intuição veio de novo e me avisou para contar ao Bruno que o título seria revelado pela boca de sua mãe. Ele respondeu de pronto: impossível. Ela não falava mais nenhuma palavra desde o AVC.

Acontece que a vida é um milagre incompreensível. Na semana seguinte, ao chegar em casa, Terezinha falou de novo, só mais uma frase. Chamou Bruno perto dela e disse: "e no princípio eu vim". Princípio não é uma palavra do seu vocabulário comum, difícil entender de onde surgiu a frase. Não houve mais conversa depois disso. Era o título.

Quando tudo ficou pronto, ativei a força da tríade que começou um pouco antes: eu e Valter Hugo Mãe escrevemos posfácio e prefácio, dizendo ao mundo o que achávamos daquela obra. Depois chegou o Nathan, editor da Moinhos, que comprou a ideia de publicar o livro "E, no princípio, ela veio". O nosso receio era de que Terezinha partisse antes que o trabalho estivesse pronto, mas ela ficou firme. Viu tudo, soube de tudo. Soube, inclusive, que o livro é finalista do Prêmio Jabuti, uma das honrarias literárias mais importantes do Brasil. É uma história bonita de contar. Eu me orgulho de ter ajudado o Bruno, mas a vitória é toda dele. Palavra por palavra. Não tem prêmio no mundo que comporte o tanto de amor daquele abraço de mãe que tanto tocou meu coração. O abraço virou livro. E o livro virou um pedaço da eternidade.


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