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Escritora e jornalista com doutorado em estudos da literatura pela Universidade Federal Fluminense. Ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria de Literatura Infantil com o livro

O corvo e a andorinha

Tipo Crônica

Narrar em segunda pessoa é difícil, eu pensei. Em geral as histórias são contadas em primeira pessoa - quando alguém assume a condução da prosa, conjugando os verbos, tomando para si o protagonismo, o domínio dos atos - ou em terceira pessoa, sobre os outros, falando de algo que acontece com alguma distância de quem conta. É a primeira decisão que se toma no início do trabalho de escrever ou falar. A casa da ficção tem poucas portas, como disse James Wood, naquele livro que você também leu.

Contar alguma coisa usando o tu é instigante, eu penso nisso desde que soube que a intenção era essa. Quando comecei a estudar Espanhol, a professora me disse que era um sinal de educação, ao conhecer alguém, perguntar se podemos tutear. Na pergunta dos hispanohablantes o ponto de interrogação vem no começo e no fim. O de exclamação, também. Quem começa a ler já sabe se a frase tem algo a perguntar ou a exaltar, desde o começo. Saber o que se quer dizer desde o início facilita qualquer coisa.

Voltando ao tuteo, mudar o padrão da conversa para a informalidade não é algo que se deva fazer sem permissão em língua espanhola, ela disse. Lembro disso agora, quando você me contou que quer escrever literatura tuteando e de tanto pensar entendi uma coisa óbvia: escrever carta é tutear. A carta é um dos gêneros literários mais bonitos. Romance epistolar, quando funciona bem, é inesquecível. É como abrir a correspondência alheia em segredo, ler as cartas que vão e as respostas que voltam. E agora mesmo o que faço aqui é escrever uma carta em segunda pessoa para discutir a narrativa em segunda pessoa, veja só que engodo.

Isso de mergulhar a vida na literatura muda completamente a forma de enxergar o mundo, você não acha? Para mim tem mudado, as pessoas e as coisas ganham mais camadas de compreensão e beleza. Um pedaço de concreto no alto da porta de uma casa transforma-se em platimbanda, carrega uma tradição de séculos para dentro de uma conversa em poucos segundos, arrasta o sertão inteiro, inúmeras cores, cabe tudo em uma palavra só.

As conversas nas cadeiras diante das platimbandas também são narrativas em segunda pessoa. Horas e horas falando do que dá vontade, sem regra nem controle, seguindo o fio da memória, o fluxo da conversa, rindo até do miado dos gatos. Foi em um desses diálogos, sem tempo nem lugar, que você lembrou do Ícaro voando para o sol. É um mito que me dá muita pena, porque acho que algumas pessoas entendem mal. Parece até que sonhar é perigoso. O grande perigo da vida é justamente não sonhar.

Eu mesma fiquei pensando em escrever uma história em segunda pessoa. Seria sobre um corvo e uma andorinha por causa da frase: "pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro", do poema do Edgar Allan Poe que o Fernando Pessoa traduziu. As andorinhas são símbolos de Portugal, eis um grande encontro. Dois pássaros conversando é um bom exemplo de tudo que estamos falando.

Isso de mergulhar os dias na literatura e a literatura na rotina deixa a gente com muitas ideias estranhas e sonhos mirabolantes. Desconheço vida melhor. A andorinha poderia dizer ao corvo que Ícaro só errou porque não calculou bem as coisas. Andorinhas sabem sonhar e depois voltar para o chão. É bonito escrever em segunda pessoa como quem olha nos olhos. Algo que me diz que pode dar muito certo.

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