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Escritora e jornalista com doutorado em estudos da literatura pela Universidade Federal Fluminense. Ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria de Literatura Infantil com o livro

O bom Daemon

Tipo Crônica

Acordar, lavar o rosto, olhar os próprios olhos no espelho e dizer para si mesmo que dia é hoje. Dia, mês e ano, em voz alta, diariamente. Gabriel García Márquez disse, em uma entrevista, que este era o seu hábito mais constante. Os outros todos derivavam deste, da decisão de manter os pensamentos no intervalo das próximas vinte e quatro horas, nem um minuto a mais ou a menos. A água lava a noite passada. A voz evoca a concretude do calendário.

No dia seguinte, o acordo é renovado. Mais um lote de vinte e quatro horas e assim foram tantos anos de uma vida plena. Enquanto ideia, parece a fórmula simples de manutenção da paz. A prática é um desafio. Para lembrar, talvez seja o caso de deixar um bilhete ao lado do espelho, nos passos de um tratamento contra as adicções. Pensar demais no passado ou no futuro pode ser um vício nocivo, exige um ataque pesado. Olhar no espelho e entrar em combate, todos os dias, para não sofrer pelo que não existe mais ou pelo que não aconteceu ainda.

A reflexão de García Márquez nos leva naturalmente ao Estoicismo. E o desejo de entender o pensamento estoico provoca o inevitável encontro com a obra de Marco Aurélio, o imperador romano que liderava batalhas; encarou a Peste Antonina e a morte de cinco milhões de pessoas; enquanto dedicava suas noites a transformar em palavra escrita suas teorias sobre as condutas corretas na vida.

O título original era "Coisas para eu próprio", uma série de 12 livros que provavelmente não foram escritos para que o mundo os conhecesse. Era um exercício de prazer e vida contemplativa, uma forma de organizar os pensamentos. O escritor francês Georges Picard defende exatamente isso, que o processo de escrever organiza a mente.

É fácil encontrar o livro de Marco Aurélio em português. Hoje os textos foram reunidos com o título "Meditações". As traduções alteram muito o sentido do texto, uma palavra modificada já pode ser fatal em uma obra dessa natureza. Usei a versão traduzida por Alexandre Pires Vieira em 2019. O original em grego está na Livraria Digital Perseus.

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Seguimos o fio livre dos seus pensamentos. Para o imperador não importa se alguém acredita na Providência Divina ou apenas em átomos e caos, uma visão epicureana e ateísta. Mas ele mesmo procura evitar a crença nos mágicos e feiticeiros. "O que quer que eu seja, sou um pouco de carne, sopro de vida e a parte que reina". Esta é sua verdade.

Ser feliz, para os gregos, é viver sob a influência de um bom Daemon, a Eudaimonia; governar a própria vontade, e não se deixar desviar por nada, mantendo a alegria em todas as circunstâncias. O bom Daemon, que não tem nada a ver com a conotação negativa de Demônio. É o nome da força que nos alimenta. Cada um tem a sua forma, seu Daemon de companhia. Triste de quem não tem.

O imperador precisava ser racional para comandar seu povo, por isso evitava a fé e as paixões. Nós, pessoas comuns, não precisamos fugir tanto assim da vida. É uma boa prática lavar o rosto de manhã, encarar os próprios olhos e repetir a data que o calendário mostra. Mas o meu bom Daemon costuma dizer que só vale seguir pelas horas adentro com fé no amor e nos desejos, com um bom dia apaixonado para algo ou alguém. Um plano, um amor, um dia de cada vez e muitos sonhos ao mesmo tempo.

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